“Olhos nos pés” (poema de Cristileine Leão)

Já há algum tempo que me tenho interessado bastante pela simbiose das diversas artes. Há, depois, uma ideia que me tem seduzido cada vez mais. Em vez da fragmentação, tentar chegar a um espaço em que as diferenças da forma não importem assim tanto. Por isso mesmo é perfeitamente plausível que um desenho seja poético ou um poema evoque, na nossa ideia, um poema. Fiquei, por isso mesmo, imensamente feliz que este meu desenho, em que os pés têm olhos nas suas plantas, tenha servido de inspiração para o seguinte poema da querida Cristileine Leão, “Olhos nos pés”, que reproduzo com a devida autorização. Quando perguntaram, certa vez, ao Almada Negreiros como o fenómeno da comunicação influenciou o seu trabalho, ele respondeu prontamente, “Tenho 76 anos de idade, e desde que me conheço nunca pisei o risco fora daquilo que não fosse comunicação.” Penso que é isso mesmo que está a acontecer, comunicação no seu estado puro. Obrigada Cristileine. Passem pelo seu blog,  Depressão com poesia, é só clicar AQUI.

Andava

Com olhos no pés

Ninguém via

Que ela passava

Todos iam/

Enxergava

Por outra perspetiva

Além da Terra

E das bocas de tramela/

Quando descansava

Sabia muito mais

Mas, os dias não lhe permitiam

Visão/

Em movimento

Não podia pisar

Em qualquer caminho

Cisco dói/

Sensibilidades não usa salto

Indiferença sim

Usa até perna e cara de pau/

De olhos nos pés

Não havia um rosto

Para lhe (as)segurar

Seguiu acreditando que

A vida

É tudo o que não se vê/

Até o dia que

Os cílios

Criaram raízes no chão

E as pupilas brotaram

Para sempre.

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Nos quatro cantos dos pontos cardeais

Nos quatro cantos dos pontos cardeais,
sentei-me em frente a uma palavra,
pintada na parede.
De entre todas as palavras,
era aquela, tantas vezes esvaziada e preenchida,
aumentada e diluída na repetição,
destacada e esquecida entre as cores da festa,
entre as crianças que saltam e brincam,
os carteiristas, os peregrinos e o ruído das vozes das barracas.
Mas era aquela a palavra, desenhada no seu próprio lugar,
como se algo que vive apenas de som e ar,
pudesse mesmo ocupar um espaço:
físico, delimitado, com arestas princípio e fim,
como a direcção da rosa dos ventos que me trouxe até aqui.
Era uma palavra pintada tal como se pinta o mundo,
com parto de tinta e pincel,
fonemas cuidados e transcritos que se sentiam na sua casa,
sons que na boca soavam como quaisquer outros,
mas que ali, à minha frente,
transformados em imagem sem eu saber o que fazer com ela,
clareavam mais,
respiravam mais a plenos pulmões,
como se os sons se pudessem ver,
como se as palavras pudessem respirar.
Entre os pontos cardeais sentei-me naquele banco,
em frente àquela parede,
posso até dar as coordenadas.
E juro, juro até que as mãos dos grafemas saíram do tijolo,
prontas para me embalar.
Fui posta ao colo de um palavra, num cobertor de esperança,
enquanto, entre o sono e a vigília, eu perguntava,
andarei amanhã no meu espaço?

A árvore de dois sentidos

Os pássaros apressam-se para a árvore, quando a lua visita o céu.
Há um magnetismo que os atrai e grita:
“a árvore, quando está quieta, carrega vida”.
As asas têm as nuvens, as raízes o centro do solo.
As aves, em consciência, voam,
mas a árvore chega, ao mesmo tempo, às alturas da superfície,
e às profundezas da terra.
Há um íman a norte que atrai quem voa, e faz sempre regressar sem perde o lugar.
Mas, em boa verdade, os pássaros podem sempre ir, a árvore só pode ficar,
mesmo conhecedora do ar e dos lençóis de água, da humidade e da lama escura,
dos bichos que escavam o chão que os pés pisam.
E já que tudo é uma questão de profundidade, o que é mais infinito?
Um voo de ave para as nuvens, ou uma raiz que rompe a fundo,
e não pára de crescer no inverso?
E já que tudo, afinal, é relativo, o que demora mais tempo?
Um regresso de pássaro ao seu galho, ou o tronco de árvore que levita nos dois sentidos,
num espaço que não é o seu?
Que idade têm as árvores?