Isaura Sousa: pintar com as cores quentes do ser humano

A entrevista que se segue foi publicada na revista Gerador. Em breve, publicarei a versão completa 😉

A pintora Isaura Sousa é das cores vivas, embora diga que gosta de todas elas. De facto, foi de camisola amarela e chapéu que se apresentou no Café Concerto do Teatro de Vila Real, para a nossa boa conversa. A temperatura do dia era mais do que conivente com este estado de espírito quente, activo e dinâmico que, segundo o que a própria transmontana me confessou, é propício a fazer várias coisas ao mesmo tempo. E assim mesmo é Isaura. Pinta mas também dá aulas (estudou Educação Visual e Tecnológica) e, sempre que pode, apela à sustentabilidade e à consciencialização ecológica.  Como prova de que transpõe essa real preocupação para o seu trabalho, recorda as suas máscaras — além da pintura gosta de transformar vários materiais ― em que os recursos são todos reutilizáveis. Não foi por acaso que falei das cores quentes. É essa a vibração que os seus quadros emanam, principalmente os vermelhos aliados ao corpo feminino. E relembro isto porque, tal como Isaura frisou, a cor é tão importante e diz tanto da personalidade como a própria composição do desenho em si. A nudez nas suas pinturas não é frívola nem chocante, tenta antes extrair do corpo a naturalidade, tal como o ser humano veio ao mundo pela primeira vez, como ‘bicho do mundo’. Da feminilidade extrai a sensualidade e beleza, numa tentativa de dar à mulher o poder que lhe é devido, olhando para dentro daquilo que é a sua feminilidade inerente. Ama os naturalistas sendo esse, aliás, o foco da sua tese de doutoramento acerca de Malhoa. Há, em Isaura, uma outra peculiaridade interessante, o seu gosto pela literatura e poesia, ou seja ― a palavra. O que nos levou a falar, também, na correlação entre a linguagem pictórica e literária: a literatura pode ser visual e um quadro literário. Por isso escolheu Almada para a sua tese de mestrado, a interdisciplinaridade literária e imagética. Mas, já que a onda são as férias grandes, as maiores recordações desta transmontana prendem-se com o mar e a visita aos locais onde os naturalistas e impressionistas passaram e pintaram. É isso que guarda.

Pelo que pude observar, o feminino, o corpo, está muito presente na sua obra. Pode explicar essas temáticas?

Quase sempre, em termos representativos, utilizo o feminino, embora o nú seja muito subtil.  O propósito não é ser chocante, nada disso. Mas, sem ser propriamente feminista, dei sempre muito valor à mulher, que foi sempre recalcada e sub-valorizada. A minha maneira de representar o corpo não é como um objecto mas como algo natural — um corpo que nasceu e que tem de ser  encarado com naturalidade, não como objecto puramente sexual ou comercial. Há, também, de se reconhecer que as formas do corpo feminino têm outra beleza: é isso que eu tento extrair dessa representação da mulher. Retiro para fora a essência do corpo em si, como algo normal, tal qual um bicho do mundo  quando o ser humano veio ao mundo. É natural, mas muitas vezes é visto como pecado. Tivemos épocas em que não era possível fazer nús. Não temos de encará-lo como pecado ou objecto, mas como algo natural, bonito, que dá beleza, espontaneidade , sensualidade e frescura.

Há, também, uma relação muito óbvia com a cor. Há uma preferência pelos tons quentes certo?

Eu sou das cores quentes, como costumo dizer. Tem a ver com o meu carácter. A cor, como o desenho, quer seja por linhas ou pontos, quer queiramos quer não, reflecte o nosso carácter. Eu sou, por natureza, uma pessoa muito espontânea, dinâmica e franca. Gosto de dizer aquilo penso. Esse dinamismo está dentro da minha personalidade, mas gosto de todas as cores, até das cores frias. Há algumas composições em que, até por uma questão de harmonia, também utilizo os tons mais  frios. A verdade é que hoje pode estar a ver-me de amarelo, mas amanhã posso estar de azul. Se tivesse de escolher, no entanto, em usar um determinado tipo de cores para sempre, seriam as cores quentes , sem dúvida. Condizem com o meu carácter dinâmico, de criar e de fazer várias coisas ao mesmo tempo. É o calor, o dinamismo e a explosão. Nas cores quentes está lá tudo, reflecte tudo o que nós somos. Têm uma simbologia muito forte, mostram muitas mais coisas que têm a ver comigo. Quando dou conta já estou a pintar com cores quentes.

No seu trabalho com as máscaras, há a utilização de materiais reutilizáveis. Em alguns dos seus quadros, a natureza também está presente. Como é a sua relação com o ambiente?

Por alguma razão também escolhi o naturalismo. Sou uma acérrima amiga do ambiente e continuo a pregá-lo. A minha mensagem, sempre, seja em que disciplina for (já dei muitas disciplinas e fiz muitos currículos) é o ambiente, a natureza e o desenvolvimento sustentável.  Uma das coisas que está patente na minha exposição das máscaras é a reutilização dos materiais, não porque é bonito mas porque acho que deve ser mesmo assim.Utilizo material que ainda posso reutilizar, recuperar e estou sempre a pensar na água que é o elemento essencial da vida — temos de o poupar. Prego-o todos os dias nas minhas aulas e transponho-o para a minha vida e para as minhas coisas. Nós fazemos parte da natureza, temos de tratar dela. Não se trata apenas de se ser amigo do ambiente para a televisão, é fazer com que isso seja verdadeiro. Se não tratarmos da natureza vamos ficar sem ela daqui a uns anos.

A Isaura também tem uma ligação muito forte com a poesia. Aliás, a sua tese de mestrado incide-se sobre a imagem pictórica e literária de Almada Negreiros. Como é que encara a correlação entre estas duas linguagens?

São duas linguagens que, juntas, fazem uma explosão. Um texto precisa de muito para ficar bem definido e bem pensado — acaba por ser tudo.Mas, se alguém ficar sem a capacidade de poder transmitir o que pretende através de linguagem gestual ou oral, pode transmiti-lo através da linguagem pictórica . É uma outra linguagem que é válida, muito visível e compreensível. É uma mais valia muito rica. Quando fiz o doutoramento (acabei-o há 4 anos) pensei,  para um dos trabalhos curriculares, em fazer uma dicotomia entre a parte pictórica e literária dos naturalistas e dos realistas — ligar os dois. Fi-lo porque tinha esta memória cultural desde sempre. De quem eu me lembrei? De um Júlio Diniz e um Malhoa e comprovei o que tentava dizer: um escreveu o outro pintou. Notava-se em determinadas cenas campestres, rurais e das regiões — o que um escreveu o outro pintou. Mas, lá está, cheguei lá devido à minha memória cultural e, na altura, foi fácil, por isso mesmo, pensar na temática.

Tem alguma memória associada ao tempo das suas férias grandes?

Não. Tenho, no entanto, preferência pela paisagem marítima, pelo mar. Gosto sempre, quando faço interregnos durante o ano, de ir  ver o mar porque gosto daquele cheiro, daquela imensidão. Mesmo nos Verões posso ir a outro locais mas tenho de ir, sempre, ao mar. O que tenho na memória, até já como adulta, é que em muitas das férias consegui observar coisas que gostava de ver. Então, o que gosto de fazer nas férias, é ir ao exterior e poder observar, ver um Cézanne ao vivo , apreciar o local onde pintou, onde andou. Ver o sol directo da luz e ver onde os  impressionistas estiveram. Isso é que me deixam memórias e não me esqueço.

 

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Phill Veras: “Minhas músicas são fundadas em sonhos e imagens abstratas”

Se há sentimento que transparece em ‘Alma’, último álbum de Phill Veras, é, essencialmente, um sensível lado onírico perceptível, até, pela utilização da palavra sonho ao longo dos 12 temas. ‘Me leva’ retrata na perfeição isso mesmo, “Por aproveitar os sonhos/Passear altos/Descobrindo altos tons/Sublinho dons/Tamanhos dons/ Por sentir o elevador aos pés/Por estar no espaço/Descobrindo o palco/  Colorindo tudo ao redor/Vou tentar não dar um nó/De você só quero tons azuis/Se voar me leva”. Fazendo também, através desta letra, uma ligação com o significado psicológico das cores, neste caso o azul. E a verdade é que, ao ouvirmos a delicadeza da melodia ‘Me leva’, quase que sentimos o corpo a levitar como se, efectivamente, tivéssemos um elevador nos nossos pés que nos levasse para cima- uma imagem verbal que daria um excelente desenho.  É impossível dissociar Phill Veras da melodia, mas também da palavra, uma vez que as suas letras são autênticas poesias. Mesmo que o próprio me tenha confessado que não tem por hábito escrever sem musicar – “sempre escrevo pensando na música, na maioria das vezes a melodia vem antes da letra” – o resultado acaba por se transformar num diálogo encetado consigo mesmo, sem esquecer uma abrangência que se abre, também, ao mundo interior de outras pessoas, de quem o ouve. ‘Alma’ é já o quarto trabalho discográfico do artista maranhense, depois dos EP’s ‘Valsa e Vapor’ , de 2012, e ‘A Estrada’, de 2013, e do álbum ‘Carpete’, de 2014. Quatro anos volvidos, eis que chega ‘Alma’, cujos timbre electrónicos são utilizados “respeitando a intenção da música, com toda a certeza eles ajudam a caracterizá-la, gosto bastante”.  Sem mais demoras vamos, então, ler o principal – as palavras de Phill Veras, nesta entrevista concedida por e-mail.

Nas letras do álbum ‘Alma’ utilizas muito a palavra sonho. O que é que há de tão apelativo, para ti, nessa palavra?

É um vício, admito. Minhas músicas são fundadas em sonhos e imagens abstratas. É como um emaranhado de imagens, como em alguns sonhos confusos. O significado fica mais ao fundo.

Escreves poemas sem o objectivo de os musicares, mesmo que fiquem guardados? Ou as palavras ganham uma outra magia quando surgem acompanhadas pelo som do violão?


Sempre escrevo pensando na música, na maioria das vezes a melodia vem antes da letra. Nunca me coloco para escrever apenas poemas. Sempre alcanço o violão antes do caderno, sou amante das melodias.


Há uma dinâmica espiritual neste novo álbum, é verdade. Afirma-se, igualmente, que há uma maior leveza por isso mesmo. ‘Alma’ também está muito pautado por uma ideia de reviver.  Mas esse contexto, embora se tenha notado mais, não esteve sempre presente no teu trabalho? Foi preciso esperar por uma maior maturação para sair agora, como saiu?

Confesso que sempre fui muito curioso. Sempre me coloco atento e interessado quando o assunto é espiritualidade ou coisas misteriosas, e a relação com a música foi se aprofundando cada vez mais. É tão natural ‘pra’ mim que às vezes nem percebo a evolução. Não esquematizei para sair assim, apenas saiu.


Explica melhor esse contexto espiritual e, o que é muito interessante, essa noção de uma psicologia das cores.

Estou longe de me considerar um espiritualista nato. Tudo gira em torno da minha curiosidade e a busca por uma boa leitura. Encontrei o tema sobre o significado das cores na espiritualidade em algum blog espiritualista, achei de fato muito interessante. Aquilo ficou fermentando em meus pensamentos, então acabei escrevendo uma música citando uma das minhas cores favoritas, o azul. Na espiritualidade, o azul significa calmaria e tranquilidade, a música tem muito disso.

O que tu compões é um diálogo de ti para contigo, ou só faz sentido vir a público a partir do momento em que isso se abre, depois, às vivências de quem te escuta?

Sim, inicialmente é um diálogo comigo mesmo, meus devaneios. É mágico ver pessoas se identificando com a obra, acho que tem a ver com a intenção de amor nas músicas.

Gostas de fazer uso de histórias, desenvolver um lado contista, para escreveres?

Poucas vezes fiz assim. Gosto muito da palavra solta que carrega uma intenção. Sempre me surpreendo positivamente com a interpretação do público.


A nível musical quais foram os maiores desafios de ‘Alma’? Consideras que é mais suave? Os timbres electrónicos ajudaram nesse sentido?

O grande desafio foi selecionar as músicas, ficaram muitas de fora. O tom de suavidade sempre foi algo muito presente nos meus álbuns, realmente não sei qual seria o mais suave. Sempre uso os timbres eletrônicos respeitando a intenção da música, com toda a certeza eles ajudam a caracterizá-la, gosto bastante.   

Como foi produzires sozinho pela primeira vez?

A novidade foi lançar, nunca tinha lançado um álbum totalmente produzido por mim, mas o processo de produção não é nada novo pra mim, sempre produzi e gravei muito em casa, além de compor. Com o passar do tempo fui aprimorando cada vez mais o meu conhecimento sobre a tecnologia de gravação, acho que isso fez eu me sentir mais seguro para o lançamento.


É verdade que gostarias de ter um estúdio para gravar, também, trabalhos de outros artistas? Gostas mais desse trabalho de bastidores?

Tenho um pequeno estúdio em casa, sou muito apaixonado pelo processo de produção e gravação. Com toda certeza existe a vontade de produzir músicas de outros artistas, devo me entregar quando aparecer uma boa oportunidade

*Respostas da entrevista em PT-BR.

E andava

E andava milhas, e andava dias,
andava mundos, andava fundos,
o universo inteira à procura.
Mas só andei horas,
entre o peso das pernas,
e a poeira das obras a travar caminhos.
Mas só andei horas,
entre os chorões, as palmeiras e as pontes.
E andava, andava,
Uma vontade de me esvair até que os pés caminhassem por si sós,
e não houvesse mais chão.
E andava e andava,
até que os calos se formassem,
e as feridas se esfolassem,
em sangue a manchar as sapatilhas.
Só à procura, à procura, à procura.
Onde está o outro lado do meu espelho?
Terra bem me queres ou mal me queres?
É que há um trabalho que tem de ser só meu.
Rápido, sem parar, sem ver montras,
não há tempo.
se não o efeito anula-se.
Sem ver o espelho de água,
a reflectir o céu e a natureza da cidade.
Mas esta vontade e só andei horas.
Percebe, funcionário a varrer os passeios municipais?
Saia da frente,
é que há um trabalho que tem de ser só meu.
Quem é aquele velho sentado no banco a olhar para o rio?
Eu tenho de continuar senhor!
É que o rio ainda não fala comigo.
Olho para ele e instantaneamente o meu corpo enche-se de lonjura,
e a nostalgia começa a travar-me a garganta.
Só sobra o desejo de me fundir nas suas pequenas ondinhas.
Mas ele ainda não me quer.
O que é que o rio lhe diz velho, sentado a tarde inteira?
Sabe que lhe ofereci, uma vez, os meus anseios?
Depois de andar o universo,
agora não,
que há um trabalho que tem de ser só meu,
vou sentar-me ao pé de si, a ver se ele me dá a resposta das minha penas.
Ajude-me a descansar, por favor!
Os dois calados, quietinhos a tarde inteira,
a nos encontrarmos com o rio no silêncio,
enquanto o escutamos no lugar anterior às palavras.
Onde fica esse lugar?
Estou à procura, senhor velho!
Agora, não,
que há um trabalho que tem de ser só meu.

Dos pseudo-líderes e totalitarismos

O desenvolvimento social não é um comboio que anda sempre em frente. Os valores e o progresso nunca estão assegurados e, mundialmente, estamos a pagar caro essa utopia de achar que o povo jamais clamaria por fantasmas de outrora que achávamos enterrados. Já deveríamos ter entendido isso. Os erros foram mais do que muitos. Em primeiro lugar, e o fundamental, as instituições democráticas demitiram-se da sua credibilidade junto das populações. No seu pedestal, não viram que a par das atitudes de corrupção ou desinteresse social, o seu poder de influência decaía para quem não sabe o que diz, mas fá-lo de forma clara, concisa e descomplicada. Embora a nós nos pareça atroz, para muitos, o povo que realmente sustenta a força motriz do dia-a-dia e está sempre a ser esquecido, é uma luz ao fundo do túnel. Forçada, torpe, porque não há escolha, mas lá está, as coisas na prática têm, obrigatoriamente, de funcionar, não há cá sonhos, e há que ter uma directriz. Se não tivermos de pensar por nós próprios e alguém nos disser para onde havemos de ir, óptimo. A banalidade do mal choca mas é real. Este mundo de opiniões rápidas em que quem não mata, esfola presta-se a isso e é favorável a estes pseudo-líderes. Os órgãos de comunicação social (uma classe de egos que simplesmente não se sabe unir nem olha para a miséria dos seus próprios profissionais) também acordou muito tarde e não soube delinear bem a sua posição face à era das redes sociais. Os profissionais da informação (que deveriam ter mostrado o seu profissionalismo na altura certa) perderam a influência também, assim como as instituições democráticas. Ridicularizam e descredibilizaram o Trump, ele ganhou. As investigações do New York Times não interessaram. O mesmo erro pode acontecer com o Bolsonaro, assim como ainda pode acontecer na própria Europa. Engraçado que os grandes poderes tradicionais que pensavam ter uma grande influência sobre as populações, afinal não a tinham, era um equívoco. Resta, assim, a desinformação e um desnorte nunca vistos nestes anos de democracia. As pessoas são, também, as suas circunstâncias. As bases não estão disponíveis, não podemos exigir muito mais. E dessa forma, independentemente de estarmos no século XIX, XX ou XXI, os erros, o desnorte e os Bolsonaros vão voltar sempre uma e outra vez. Isto, porque somos só e meramente humanos, não importa a época.

 

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