Os caracóis é que sabem (mais papel estragado)

Foto de Belisa Isabel.

Anúncios

‘Mulheres que correm com os lobos’ — o livro aliado ao seu contexto analítico (texto completo)

Se há livros que necessitam de um bom contexto, este é um deles. Por isso é que não é tão fácil, assim, escrever estas linhas. Mas vamos, então, fazer um esforço e começar pelo início. Tudo tem um início, é bom respeitar isso, e é aí que encontramos a nossa porta de entrada. Espero, no fim, ter sido explícita e ter conseguido contextualizar bem as coisas. Ah, e também vou tentar ser imparcial. No final, vão entender porque é que essa imparcialidade é necessária. Se eu não conseguir, então o livro de reclamações está, gentilmente, aberto. Façam uso do vosso direito.  As coisas querem-se abertas e dinâmicas. Não quero que os textos para este blog sejam diferentes 🙂

O inconsciente colectivo de Carl Gustav Jung

 

Não, não foi C.G. Jung que escreveu ‘Mulheres que correm com os lobos’, foi Clarissa Pinkola Estés. Mas como Clarissa foi uma psicanalista analítica — ou seja, seguia a linha teórica de Jung — vale a pena perceber quem foi o pioneiro da psicologia analítica e saber, em linhas bastante gerais, do que se está a falar.  Quando se aborda a psicanálise, a primeira coisa que nos vem à mente é Freud. É compreensível porque é apontado como o pai desta vertente teórica que se predispõe, também, a estudar e entender a psique humana. (Só por curiosidade, o termo psique advém do grego antigo  e está, intrinsecamente, ligado à mitologia. Significa sopro ou, então, personificação da alma por via  de Psiquê — a linda mortal amada por Eros). Mas, continuando, a verdade é que a psicanálise nunca foi consensual e, desde cedo, teve várias ramificações — a psicologia analítica é uma delas. Jung, psiquiatra nascido em 1875 no cantão suíço da Turgóvia, começou por ser um discípulo de Freud e, como não poderia deixar de ser, travaram conhecimento e, até, amizade. Acabaram, no entanto, por seguir caminhos opostos e bastante díspares entre si. Uma das principais diferenças prende-se com o desenvolvimento do inconsciente colectivo, por Jung, que não era reconhecido e aceite por Freud. O pai da psicanálise encarava o inconsciente, apenas,  como resultado de experiências pessoais, algo individual.  A psicanálise junguiana também inclui e trabalha esse lado, isso não é descurado, mas não se fica por aí — complementa-o com a experiência colectiva. O que é essa experiência colectiva, o inconsciente colectivo aos olhos de Jung? De uma forma genérica, é verdade que vários segmentos da população partilham experiências em conjunto, uma história que deixa de ser meramente individual e passa a ser partilhada por outros seres que partilham uma característica em geral. Como mero exemplo, e fazendo uma ligação ao tema do livro em análise, a Beatriz, apenas como Beatriz, é a sua própria pessoa enquanto ser individual. Não deixa, no entanto, de ser mulher. À luz desta teoria, Beatriz partilha toda uma história com as mulheres em geral. Até aqui é fácil de entender, até porque as mulheres partilham certas condicionantes, vivências em conjunto que podem moldar o seu percurso e psique. Mas vamos mais longe, ainda. E se toda a história da mulher ancestral —  com as suas lutas, os seus dilemas,  vitórias, sorrisos, choros e características primárias chave — tivesse passado de geração em geração até chegar ao inconsciente da minha avó, por conseguinte ao da minha mãe e, depois, até ao meu — uma jovem mulher millennial do século XXI que, a priori, já não devia ter nada em comum com essa mulher ancestral tão distante no tempo? Pois bem, de uma forma rápida, é assim que se processa o inconsciente colectivo — algo que vai passando de geração em geração e é, precisamente, neste ponto, que entram os arquétipos. Certamente, saberão associar a palavra arquétipo à filosofia de Platão. A mesa em que escrevo, neste ‘mundo sensível’, é apenas uma cópia  da mesa perfeita  que vive no ‘mundo inteligível’, ‘das ideias’. Por sua vez, essa mesa perfeita do mundo das ideias funciona como molde para o fabrico de todas as mesas que existem — ou seja, é um arquétipo. Para Jung, o arquétipo seria, então, a imagem molde, o símbolo, o signo através do qual o inconsciente colectivo viaja de geração em geração e chega até nós. Os sonhos, as histórias, mitos e lendas são importantíssimos para a manifestação dessas mesmas imagens que, como já foi explicado, fariam o transporte do inconsciente colectivo. É aqui, há que o dizer,  que encontramos o foco principal das críticas que foram e, em parte, continuam a ser feitas à psicologia analítica. Logo no desenvolvimento deste conceito, Jung foi acusado de pouca precisão científica, de ser meramente espiritual e de alicerçar as suas descobertas em crenças. Se o leitor quiser aprofundar mais estes conceitos formule, então, de forma independente, o seu próprio juízo e queira saber a opinião de profissionais que não se abstenham de ter uma visão crítica. A psicanálise é extremamente interessante, foi e é importante. É muito fácil deixar-nos levar por esse mundo de sonhos, o que tem o seu lado divertido. Mas, como já disse, é tudo menos consensual. Jung teve e tem  direito às suas críticas, assim como Freud as teve e continua a ter. Não vale a pena, portanto, sermos dogmáticos em relação a estes autores, assim como não podemos ser dogmáticos em relação a ninguém. Antes de mais, são apenas homens que também têm de ser entendidos à luz da sua época e contexto pessoal. Mas, e continuando com o inconsciente colectivo, Jung desenvolveu um arquétipo que nos vai ser, também, fundamental para entendermos o livro de Clarissa. Esse é o arquétipo da grande mãe, que se opõe ao arquétipo paterno. Para o entendermos bem vamos, primeiro, fazer uma experiência. Imaginem-se nas águas de um calmo rio sem estruturas à vista. Independentemente de não haver delimitações à vista sentem-se bem, confortáveis, protegidos e nutridos.  Esta pode ser uma boa alegoria para entendermos a ‘Grande Mãe’. No centro do seu líquido amniótico, no qual não vemos limites, ela nutre e permite-nos à vastidão e à subjectividade. Ela é sensível e ensina-nos a sensibilidade. Ela é a criativa e instintiva por excelência e introduz-nos à criatividade. Por oposição, enquanto que a sensibilidade do arquétipo materno pode ser disruptiva e, em parte, transgressora por ser a oposição do líder autoritário, o arquétipo paterno é o que representa a estrutura, o limite, o que é objectivo, a autoridade. Clarissa Pinkola Estés vai mais longe e cria, à luz destas teorias, o arquétipo da mulher selvagem. Defende que todas as mulheres têm um instinto selvagem que, independentemente de estar amordaçado, não desaparece completamente e há-de arranjar forma de brotar, pois ele é cíclico. ‘A Mulher selvagem’ está à espreita e não se esquece de nós. Quando estamos presas ela vem em nosso auxílio e liberta-nos.

“Aproximar-se da natureza instintiva não significa desestruturar-se, mudar tudo da esquerda para a direita, do preto para o branco, passar o oeste para o leste, agir como louca ou descontrolada. Não significa perder as socializações básicas ou tornar-se menos humana. Significa exatamente o oposto. A natureza selvagem possui uma vasta integridade.”

Agora sim “Mulheres que correm com os lobos”

Clarissa Pinkola Estés, nascida em 1945, o ano do fim da segunda guerra e do nascimento de uma nova ordem mundial, é uma  psicanalista junguiana americana que quer soltar as ‘lobas’ deste mundo. Mais do que uma psicanalista e terapeuta pós-traumática, ela própria se define como uma contadora e cantadora de histórias, uma poeta e  uma ‘esteta’ no sentido literal da palavra. É de ascendência hispano-mexicana mas foi adoptada por uma família de húngaros refugiados. Ao pé da fronteira entre os estados do Michigan e Indiana, onde cresceu, provou a natureza no seu estado mais puro e, isso, foi mais do que preponderante para o desenvolvimento de um sentimento telúrico bastante próprio , imaginativo e libertador, que se encontra diametralmente ligado ao imaginário da ‘mulher selvagem’, a ‘Loba’ ou, ainda, ‘a la que sabe’. No seu livro, “Mulheres que correm com os lobos”, lançado em 1992, (faz este ano um quarto de século), descreve desta forma essa experiência natural,

“Tive a sorte de crescer na natureza. Lá, os raios me falaram da morte repentina e da evanescência da vida. As ninhadas de camundongos revelavam que a morte era amenizada pela nova vida. Ao desenterrar “contas de índios”, trilobites da terra preta, eu compreendia que os seres humanos estão por aqui há muito, muito tempo. Tive aulas sobre a sagrada arte da autodecoração com borboletas pousadas no alto da minha cabeça, vaga-lumes [pirilampos] servindo de jóias durante as noites e rãs verde-esmeralda como pulseiras. Uma loba matou um de seus filhotes que estava mortalmente ferido. Para mim foi como uma dura lição sobre a compaixão e a necessidade de permitir que a morte venha aos que estão morrendo. As lagartas cabeludas que caíam dos seus galhos e voltavam a subir, arrastando-se, me ensinaram a determinação. As cócegas do seu caminhar no meu braço me revelaram como a pele pode ter vida própria. Subir ao alto das árvores me mostrou como seria o sexo um dia.”

Sim, vamos assumir as coisas e não levar ninguém a erro. Este não é um livro de psicologia tradicional. Apela, antes, de uma forma selvática à nossa imaginação, o tal fogo criador e criativo que não se pode extinguir e, também, à nossa intuição e sentidos. Não nos podemos esquecer, “a mulher selvagem’ está intimamente ligada a um instinto que é, ao mesmo tempo, humano e animal. Não, também não vamos cair no péssimo gosto de encará-lo como um livro de auto-ajuda que ensina, por exemplo, como transformar-se numa pessoa mais apetecível, , aprazível, brilhante ou de sucesso com milhões na conta bancária. Pelo contrário, é até provocador quando no capítulo “O corpo jubiloso: A carne selvagem”, ao referir-se aos lobos afirma, “todos têm sua própria configuração corporal, sua própria força e sua própria beleza. Vivem e brincam de acordo com o que são, quem são e como são. Eles não tentam ser o que não são.” O foco principal incide-se nos contos apresentados e na sua consequente explicação. Essa explicação, no entanto, embora seja extensa, não utiliza uma linguagem muito técnica ou muito junguiana. Saber o que é o inconsciente colectivo ajuda, é verdade, assim como saber o que significa ‘self’, que é repetido várias vezes.  “Self”, em termos gerais, é o que define, na totalidade, a pessoa na sua individualidade, essência  e energia psíquica.  Mas não é necessário ser-se um especialista ou ir muito a fundo nestas definições. Sempre fazendo uso do imaginário dos contos e lendas apresentadas, a mensagem das explicações pode ser entendida por quem não tenha um conhecimento profundo de psicologia ou psicanálise. O meu interesse principal adveio porque, para começar, sempre me interessei por colectâneas de contos e lendas. Sempre gostei de histórias e o que o livro faz, na sua essência, é essa recolha que vai desde contos originários do continente americano até ao velho continente europeu. Foi interessante ver como houve algumas lendas, totalmente desconhecidas para mim, que não deixaram de me remeter à mitologia greco-romana, por exemplo, ou até, de alguma forma,  ao imaginário das histórias recolhidas pelos  irmãos Grimm. E escrevo irmãos Grimm porque, para começar, as histórias originais por trás dos contos de fadas que são mundialmente conhecidos, foram alteradas para poderem ser contadas às crianças. Engana-se se pensa que são assim tão ingénuas. A Disney, posteriormente, encarregou-se do resto, mas com uma boa peculiaridade que contrastava com a ingenuidade e felicidade das donzelas. Os ilustradores dos primeiros filmes tinham, como referência, a vanguarda surrealista e o movimento romântico. Isso era visível na criação de alguns espaços que não se abstinham de ser mais soturnos ou fantasmagóricos — o momento em que a Branca de Neve se perde na floresta é um bom exemplo.

Mas, afinal, quem é esta mulher selvagem? Em primeiro lugar, utiliza-se o claro símbolo da loba. Aliás, Clarissa explica que, ao estudar os lobos, apercebeu-se de semelhanças entre as mulheres e estes animais selvagens. Ela é uma mulher robusta, tem os cabelos fortes e rejeita os espartilhos da moda que magoam e condicionam a sua feminilidade. Ela é para ter ventre e não ter vergonha dele. É leal, cuida e é ciosa da sua tribo, mas o parceiro tem de saber como tratá-la  e percebe que há uma altura para as crias irem — caso contrário nunca serão capazes de fazer florescer as suas próprias capacidades. Mais do que tudo ela é alegre, brincalhona, mas dual. Encerra em si o dia e a noite e representa a dualidade da lua e do sol (fez-me pensar na Deusa egípcia Bastet), e da morte e da vida — ou não fosse ela a sentir o cheiro do sangue quando pare ou cheiro do morto quando o lava e o prepara para a sua última morada. O imaginário deste tipo mulher é muito semelhante ao da feiticeira, da bruxa (witch deriva de wit que significa sabedoria), e, por isso mesmo, é a personificação da criatividade e, acima de tudo, intuição —  ela é a instintiva por natureza, a que tudo sabe. O que gostei nesta descrição é que não se fala da mulher lírica perfeita que tem de ser tudo para todos. Fala-se da mulher telúrica — da reivindicação da natureza para a mulher. Outra particularidade é que não se faz a separação, no sentido  clássico e religioso,  do corpo e da alma. O corpo acaba, também, por ser um veículo sagrado de sensações a que a mulher se deve permitir sem culpa, tanto no que diz respeito à relação sexual, mas não só. Há, também, o desenvolvimento da capacidade sensorial de saber ouvir uma música, saber como sentir um toque e descobrir que a pele está viva.

É verdade que, numa primeira leitura, não percebi bem estes conceitos e tive as minhas dúvidas, até mesmo por uma questão de desenvolvimento pessoal.  Estamos a falar de um livro feminino, acima de tudo, e que ensina que isso não é fraqueza, é força.  Mas será que num outro livro contemporaneamente feminista encontraria coisas como, sentir o cheiro do sangue do parto ou lavar os corpos dos mortos ou, então isto, “Não fomos feitas para ser franzinas, de cabelos frágeis, incapazes de saltar, de perseguir, [de parir, de criar uma vida].” Depois de tanto tempo a ouvir que uma mulher não tem de dar à luz ou estar, automaticamente, ligada à questão da criação, geração e vida ( E NÃO TEM, DE FACTO), isto fez-me desconfiar, sim. Sabia lá eu bem se gostaria de “parir” ou não. Depois, são estas pequenas associações automáticas que já são bem antigas no imaginário da mulher — a feiticeira,  a dualista, a intuição (o tal sexto sentido), a criatividade, o fogo criador.  Então onde está o poderio da mulher de sucesso. A CEO de uma corporação, realista, pragmática e racional? De que forma a criação e intuição femininas podem ser transgressoras e rebeldes? De que forma posso enquadrar isto tudo? Vamos ser sinceros. Ao longo da história houve sempre  características que foram privilegiadas em detrimento de outras. Ainda hoje, com todo o presumido desenvolvimento, somos capazes de ouvir “ah, pareces uma menininha”, ou “ages como uma mulher, uma florzinha”. Ou seja,houve sempre uma tendência para ver o feminino, a mulher tal como ela é, como algo fraco, inferior que não se sabe auto-regular. A mulher tem sempre de parecer outra coisa. Será por termos medo de nós próprias, será por terem medo de nós e da força ainda por descobrir? Não sei.  Mas pensando de uma forma abrangente e fazendo uma ligação às características criadoras e intuitivas . Se pensarmos na cultura pop, imaginem a revolução e transgressão de uns ‘Beatles’ que, na altura, eram vistos como ‘efeminados’ por causa dos cortes de cabelo. Ou, então, dos Rolling Stones, David Bowie e outros tantos que baralharam por completo por não se apresentarem, condignamente, à homem, segundo uma linha estrita.  Ou seja, de alguma forma, foi o tal fogo criador que os fez ver o mundo de outra forma e dizer, ‘somos assim, queremos ser assim, queremos falar disto nestas canções, há problema?” E isso acabou, ou não, também, por livrar os homens de um certo espartilho de pensamento sob o qual deviam agir? Abriu, ou não, as nossas ideias? Ensinou-nos ou não a ser mais tolerantes? Tendo em conta isto, aquilo em que, talvez, o meu pensamento divirja, é que eu já não vejo esta questão da seguinte forma — a mulher selvagem, o fogo criador, a intuição são exclusivos da descrição da mulher. Eu já não consigo dizer, por exemplo, e relembrando o contexto analítico, arquétipo materno e arquétipo paterno. Somos ambos ao mesmo tempo e não há um que tenha de estar, obrigatoriamente,  no inconsciente do homem ou da mulher (anima e animus). Aliás, as pessoas em geral, todas, são demasiado complexas, são demasiado duais ( aí é que está o seu poder), são demasiado Lua e Sol ao mesmo tempo para caberem numa descrição ou generalização, seja ela qual for.

Mas resolvidas estas dúvidas, o grande ensinamento  deste livro debaixo de todo o misticismo que nos é apresentado, (é claro que não vamos de madrugada para a floresta a não ser que avisemos as forças de segurança :D),  consiste em algo simples — o ser selvagem é aquele que, ante a tensão de uma demasiada aculturação, nos diz para correr, para fugir como se não houvesse amanhã. É aquele que nos ensina que tudo tem um tempo e que há coisas que têm de partir ou morrer para outras florirem. Que a criação e o seu fogo é o renascimento além daquilo que nos prende e condiciona. Por isso é que o homem e a mulher modernos, no sentido em que têm o trabalho a dobrar porque não têm a devida ajuda em casa, ou que dizem que sim a tudo para terem um lugar ou privilégio assegurado, (outra forma de prisão), não são enaltecidos neste livro. O ser selvagem é aquele que não tem medo de nos meter ante o abismo para sentirmos o desconforto necessário para nos descobrirmos e aguentar-nos a nós próprios.  Que se nos apresenta como feio e irascível, porque quando nos vemos sem roupas, assustamo-nos e não é fácil o confronto connosco mesmos — mas é isso que temos de ser e é essa vontade de respirar que deve ser alimentada. Todos temos esse direito. Sermos nós e seguirmos a intuição do que realmente necessitamos não é selvageria, é dignidade.  

O livro apresenta-nos contos que não são reais, é verdade. No entanto, sabemos que uma das principais razões para o folclore existir é, precisamente, para podermos exprimir a complexidade humana. Quantas vezes sentimos algo que não sabemos identificar bem ou expressar da melhor forma mas, quando ouvimos uma música, lemos um poema ou um livro dizemos, “ah, é isto”. Por isso, estes contos podem, sim, servir como um clique para descodificarmos sentimentos  e entendê-los. É para isso que a arte existe.

 

‘Mulheres que correm com os lobos’| o contexto analítico (1ª parte)

 

Se há livros que necessitam de um bom contexto, este é um deles. Por isso é que não é tão fácil, assim, escrever estas linhas. Mas vamos, então, fazer um esforço e começar pelo início. Tudo tem um início, é bom respeitar isso, e é aí que encontramos a nossa porta de entrada. Espero, no fim, ter sido explícita e ter conseguido contextualizar bem as coisas. Ah, e também vou tentar ser imparcial. No final, vão entender porque é que essa imparcialidade é necessária. Se eu não conseguir, então o livro de reclamações está, gentilmente, aberto. Façam uso do vosso direito.  As coisas querem-se abertas e dinâmicas. Não quero que os textos para este blog sejam diferentes 🙂

O inconsciente colectivo de Carl Gustav Jung

Não, não foi C.G. Jung que escreveu ‘Mulheres que correm com os lobos’, foi Clarissa Pinkola Estés. Mas como Clarissa foi uma psicanalista analítica — ou seja, seguia a linha teórica de Jung — vale a pena perceber quem foi o pioneiro da psicologia analítica e saber, em linhas bastante gerais, do que se está a falar.  Quando se aborda a psicanálise, a primeira coisa que nos vem à mente é Freud. É compreensível porque é apontado como o pai desta vertente teórica que se predispõe, também, a estudar e entender a psique humana. (Só por curiosidade, o termo psique advém do grego antigo  e está, intrinsecamente, ligado à mitologia. Significa sopro ou, então, personificação da alma por via  de Psiquê — a linda mortal amada por Eros.) Mas, continuando, a verdade é que a psicanálise nunca foi consensual e, desde cedo, teve várias ramificações — a psicologia analítica é uma delas. Jung, psiquiatra nascido em 1875 no cantão suíço da Turgóvia, começou por ser um discípulo de Freud e, como não poderia deixar de ser, travaram conhecimento e, até, amizade. Acabaram, no entanto, por seguir caminhos opostos e bastante díspares entre si. Uma das principais diferenças prende-se com o desenvolvimento do inconsciente colectivo, por Jung, que não era reconhecido e aceite por Freud. O pai da psicanálise encarava o inconsciente, apenas,  como resultado de experiências pessoais, algo individual.  A psicanálise junguiana também inclui e trabalha esse lado, isso não é descurado, mas não se fica por aí — complementa-o com a experiência colectiva. O que é essa experiência colectiva, o inconsciente colectivo aos olhos de Jung? De uma forma genérica, é verdade que vários segmentos da população partilham experiências em conjunto, uma história que deixa de ser meramente individual e passa a ser partilhada por outros seres que partilham uma característica em geral. Como mero exemplo, e fazendo uma ligação ao tema do livro em análise, a Beatriz, apenas como Beatriz, é a sua própria pessoa enquanto ser individual. Não deixa, no entanto, de ser mulher. Há luz desta teoria, Beatriz partilha toda uma história com as mulheres em geral. Até aqui é fácil de entender, até porque as mulheres partilham certas condicionantes, vivências em conjunto que podem moldar o seu percurso e psique. Mas vamos mais longe, ainda. E se toda a história da mulher ancestral —  com as suas lutas, os seus dilemas,  vitórias, sorrisos, choros e características primárias chave — tivesse passado de geração em geração até chegar ao inconsciente da minha avó, por conseguinte ao da minha mãe e, depois, até ao meu — uma jovem mulher millennial do século XXI que, a priori, já não devia ter nada em comum com essa mulher ancestral tão distante no tempo? Pois bem, de uma forma rápida, é assim que se processa o inconsciente colectivo — algo que vai passando de geração em geração e é, precisamente, neste ponto, que entram os arquétipos. Certamente, saberão associar a palavra arquétipo à filosofia de Platão. A mesa em que escrevo, neste ‘mundo sensível’, é apenas uma cópia  da mesa perfeita  que vive no ‘mundo inteligível’, ‘das ideias’. Por sua vez, essa mesa perfeita do mundo das ideias funciona como molde para o fabrico de todas as mesas que existem — ou seja, é um arquétipo. Para Jung, o arquétipo seria, então, a imagem molde, o símbolo, o signo através do qual o inconsciente colectivo viaja de geração em geração e chega até nós. Os sonhos, as histórias, mitos e lendas são importantíssimos para a manifestação dessas mesmas imagens que, como já foi explicado, fariam o transporte do inconsciente colectivo. É aqui, há que o dizer,  que encontramos o foco principal das críticas que foram e, em parte, continuam a ser feitas à psicologia analítica. Logo no desenvolvimento deste conceito, Jung foi acusado de pouca precisão científica, de ser meramente espiritual e de alicerçar as suas descobertas em crenças. Se o leitor quiser aprofundar mais estes conceitos, formule, então, de forma independente, o seu próprio juízo e queira saber a opinião de profissionais que não se abstêm de ter uma visão crítica. A psicanálise é extremamente interessante, foi e é importante. É muito fácil deixar-nos levar por esse mundo de sonhos, o que tem o seu lado divertido. Mas, como já disse, é tudo menos consensual. Jung teve e tem  direito às suas críticas, assim como Freud as teve e continua a ter. Não vale a pena, portanto, sermos dogmáticos em relação a estes autores, assim como não podemos ser dogmáticos em relação a ninguém. Antes de mais, são apenas homens que também têm de ser entendidos à luz da sua época e contexto pessoal. Mas, e continuando com o inconsciente colectivo, Jung desenvolveu um arquétipo que nos vai ser, também, fundamental para entendermos o livro de Clarissa. Esse é o arquétipo da grande mãe, que se opõe ao arquétipo paterno. Para o entendermos bem vamos, primeiro, fazer uma experiência. Imaginem-se nas águas de um calmo rio sem estruturas à vista. Independentemente de não haver delimitações à vista sentem-se bem, confortáveis, protegidos e nutridos.  Esta pode ser uma boa alegoria para entendermos a ‘Grande Mãe’. No centro do seu líquido amniótico, no qual não vemos limites, ela nutre e permite-nos à vastidão e à subjectividade. Ela é sensível e ensina-nos a sensibilidade. Ela é a criativa e instintiva por excelência e introduz-nos à criatividade. Por oposição, enquanto que a sensibilidade do arquétipo materno pode ser disruptiva e, em parte, transgressora por ser a oposição do líder autoritário, o arquétipo paterno é o que representa a estrutura, o limite, o que é objectivo, a autoridade. Clarissa Pinkola Estés vai mais longe e cria, à luz destas teorias, o arquétipo da mulher selvagem. Defende que todas as mulheres têm um instinto selvagem que, independentemente de estar amordaçado, não desaparece completamente e há-de arranjar forma de brotar, pois ele é cíclico. ‘A Mulher selvagem’ está à espreita e não se esquece de nós. Quando estamos presas ela vem em nosso auxílio e liberta-nos.

“Aproximar-se da natureza instintiva não significa desestruturar-se, mudar tudo da esquerda para a direita, do preto para o branco, passar o oeste para o leste, agir como louca ou descontrolada. Não significa perder as socializações básicas ou tornar-se menos humana. Significa exatamente o oposto. A natureza selvagem possui uma vasta integridade.”

*Esta é a primeira parte. Decidi dividir o texto porque, em primeiro lugar, penso que este livro merece um contexto cuidado. Em segundo lugar, o tempo não tem sido generoso comigo esta semana. 🙂 Na segunda parte falarei mais pormenorizadamente do livro e da autora, com a devida crítica 🙂 É para breve e postarei o texto por inteiro, claro.

O Grande Gatsby| F. Scott Fitzgerald

A brilhante capa da primeira edição, da autoria de Francis Cugat. Por mais capas que se fizessem depois, nenhuma superaria esta.

Os loucos e áureos anos 20 da boémia, do jazz, do swing, do charleston, é este o contexto histórico do ‘Grande Gatsby’, do F. Scott Fitzgerald. Estávamos na ressaca da ‘Grande Guerra’ e a crise dos anos 30, que culminaria, depois, numa outra guerra mundial, em 39, ainda estaria para vir. As palavras de ordem eram, portanto, a diversão, a dança, as festas, as roupas bonitas, o glamour e a alienação dos problemas de ordem mundial. Viver ao máximo antes que outro flagelo viesse e arrebatasse a alegria da humanidade. O resto, a infeliz história da ‘Segunda Guerra Mundial’, já a conhecemos. Mas todas as leituras têm, também, o seu subtexto, e encararmos o ‘Grande Gatsby’  só pela  perspectiva da folia e do exagero típico da época, é muito pouco. Assim como não chega a interpretação romântica do personagem Gatsby que, no fim, nos ensina que a esperança é a última a morrer — nada disso, mesmo.  Primeiro, há que esclarecer uma coisa, os anos 20 foram também os anos de Fitzgerald. O escritor fez parte dessa sociedade descrita nos seus romances. Temos de perceber, no entanto, que ao mesmo tempo que o escritor mantinha um pé dentro dessa sociedade, não se abstinha de manter o outro de fora. Os seus livros mantêm, por isso mesmo, algumas bases autobiográficas — (principalmente o livro ‘Terna é a Noite’, cujo pilar de inspiração é a doença mental da sua icónica mulher, Zelda Fitzgerald) — e uma forte crítica ao consumismo e enorme vazio moral dessa mesma sociedade. Por essa razão, se falarmos de Fitzgerald, apenas, como um escritor cinematográfico fácil, de arrebatamento romântico e que se limitava, apenas, a expor o luxo da época  e atirá-lo à cara da população em necessidade — (essas eram algumas das críticas contemporâneas do escritor) —  isso é não saber ler e, acima de tudo, não perceber nada de história.

 

Algumas das grandes chaves para entendermos o romance são-nos oferecidas, quase logo, no início, quando Nick Carraway — o personagem que nos narra os acontecimentos na primeira pessoa — se apresenta na casa de Daisy (sua prima) e Tom Buchanan. Atentem na forma como Tom é descrito, “Tinha mudado desde os tempos de New Haven. Agora era um homem encorpado de 30 anos e cabelo cor de palha, boca algo severa e atitude sobranceira. Dois olhos brilhantes e arrogantes tinham-se apoderado da expressão do rosto e davam-lhe o ar de quem estava sempre agressivamente inclinado para a frente. Nem sequer o toque efeminado do traje de montar conseguia esconder o enorme poder daquele corpo — parecia encher aquelas botas brilhantes até dar o laço nos atacadores, e via-se-lhe uma grande quantidade de músculos em acção quando o ombro se mexia debaixo do casaco fino. Era um corpo capaz de um enorme ascendente — um corpo cruel.” Mais à frente, também podemos ler, “– A civilização está a desmoronar — soltou Tom violentamente.– Eu tornei-me terrivelmente pessimista em relação a tudo. Já leste The Rise of the Colored Empires, de um tipo chamado Goddard? (…) A ideia é que se não nos pomos a pau a raça branca será… será totalmente submergida. É científico, está baseado em provas.” Um homem  robusto e musculoso, que dá a ideia de força, de autoridade, de comando e do corpo masculino perfeito, que acredita que a hegemonia branca está em risco, —  (portanto, que acredita que a sua etnia é a perfeita e que tem de dominar) — o que é que vos faz lembrar? Isso mesmo, embora Tom seja americano, apresenta uma ideologia muito parecida à defendida pelo III Reich. Só um aparte, para explicar isto melhor. Os Estados Unidos, em conjunto com as forças inglesas, foram de máxima importância para o desfecho da 2ª Guerra Mundial, ainda bem. Até aí, nada a apontar. Isso não quer dizer, porém, que ainda muito antes de Hitler subir ao poder, a ideia do homem forte, líder, bem sucedido e perfeito, que hegemonicamente é superior, não granjeasse adeptos, principalmente nos Estados Unidos. Isso é porque, através de Tom, Fitzgerald apresenta-nos uma outra América além das loucas festas. É a América dos homens líderes de sucesso que acreditam que se os outros estão numa posição inferior e de necessidade, é porque merecem e mais vale aprenderem a viver assim. Isso mesmo, a América do Self-made man. Para seres grande, tens de ostentar e teres coisas grandes, em grande — o brilho.  Em outras palavras, mais vale o parecer do que o ser. Por esta perspectiva, talvez entendamos melhor os problemas que Charlie Chaplin teve com fantástico discurso  final do filme ‘O grande ditador’, que mais não é do que uma alegoria e sátira dirigida a Hitler e Mussolini. Caso ainda não tenham visto o filme, aconselho. Encontram-no muito facilmente no Youtube.

 

Quem é, então, o misterioso Gatsby? Por um lado, acaba por ser o oposto de Tom —  (é até curiosa a forma como Tom desdenha das cores do fato de Gatsby) — , por outro, é a encarnação do self-made man empreendedor que sempre quis pertencer à leveza  daquele mundo. Aquele mundo de especulação, banca e negócios à americana. E se podemos dizer, no final, que o ‘Grande Gatsby’ é um livro de equívocos,  um romance sobre a forma fácil como os seres-humanos confundem e trocam o ‘eu necessito’, com o ‘‘eu quero e desejo’, qual é, então, o significado do seu amor por Daisy? O que significa, portanto, aquela luz longínqua do ancoradouro que, dia a após dia, nos esforçamos por alcançar? O amor entre Gatsby e Daisy seria real ou, apenas, uma construção? Claro que era uma construção. Daisy representava, para Gatsby, a luminosidade, o brilho, a beleza e a enorme delicadeza do mundo a que queria pertencer. Um mundo, supostamente, livre de problemas. Já Daisy, depois de tanto tempo, o que tem a dizer ao seu amado é isto, “nunca vi camisas tão bonitas”. É uma ilusão, tal como a luz do ancoradouro é uma ilusão que jamais será satisfeita. Estendemos os braços e pensamos — amanhã parecerei mais forte, mais importante, mais bem sucedido, mais inteligente. Irei  postar, no facebook, para todos verem, a foto do meu último carro topo de gama;  a foto do jantar naquele restaurante chique em que tem de aparecer, obrigatoriamente,  o recibo com o preço, porque se não se souber quanto se gastou, não conta. Fazemos as coisas só a pensar no objectivo final, no que podemos obter com elas, e esquecemo-nos que, se calhar, a tal luz verde já poderia estar connosco quando éramos uns ineptos mas, ainda sim, sabíamos rir e fazer troça das nossas tristes figuras ao lado dos nossos amigos. Esquecemo-nos que, se calhar, o tempo futuro e a sua satisfação com ele ficou, já, lá atrás, quando fazíamos as coisas só porque gostávamos de as fazer, não com o único objectivo de as mostrar. Lá está, é mais importante parecer do que ser.

 

O romance de Fitzgerald não foi alvo de críticas negativas mas, de forma misteriosa, não vendeu bem aquando da sua publicação. Alcançou valores abaixo do esperado o que preocupou o escritor. Transformou-se, no entanto, num clássico da literatura. Sabem qual é a definição de clássico? É algo que nunca passa de moda; o que possui, em si, aquela coisa estranha que serve para designar e caracterizar todas as épocas. Isso aplica-se ou não a este romance? Mas embora seja um clássico, este é um livro de fácil e corrida leitura. O autor não procura o virtuosismo da palavra só para parecer mais virtuoso. É, portanto, ir sem medo 🙂

 

 

‘Over troubled water’

Cheguei menina pequenina,
encosta a cabeça confusa e cansada,
e descobre sonhos na maciez da tua almofada.
Conta-me histórias de rios calmos, unificados.
E não tenhas medo,
dá-me também os rios turvos e agitados.
Eu não sou anestesia e não te prometo a paz,
mas na bifurcação das tuas águas,
transformar-me-ei em ponte que aplacará a rapidez,
o cimento concreto que não te arrastará na corrente.
Os nossos dedos, juntos e entrelaçados,
irão saber como fazer esta travessia.

‘Breve enredo’| Não te esqueças de escrever

Just for fun  😀

É de manhã e saio de casa para mais um dia. À porta do meu prédio está uma mulher, totalmente nua, e, entre a vergonha e a admiração da sua coragem reparo como é belíssima. É a mulher mais perfeita em quem eu pus os olhos. Aquela imagem incomoda-me, causa-me desconforto mas, ao mesmo tempo, diverte-me e sinto por ela uma estranha familiaridade.  Tento vencer o choque, o espanto, e sigo o meu caminho sem me aproximar muito dela. Parecia tão à vontade e feliz com a sua nudez que penso, ‘esta pessoa deve ser completamente maluca. É melhor afastar-me para não ter problemas’.  Mas ela repara em mim, chama pelo meu nome e começa a seguir-me.  “Como é que ela sabe o meu nome, se não a conheço?”, penso. Fico com receio do que me  possa fazer. Afinal pode ser uma criminosa, uma serial killer, uma raptora, enfim. Imagino toda uma panóplia de possibilidades que me amedrontam.   Ela continua a chamar por mim e, quando repara que eu a ignoro deliberadamente, começa a correr. Começo a correr também mas esqueço-me que aquela rua vai dar a um beco sem saída. Ela alcança-me, finalmente, e as minha pernas tremem como nunca tremeram em toda a minha vida. “Queres matar-me do coração, pá? O trabalho que tu me dás!” Não consigo falar, literalmente. Ela ainda é mais bela ao perto, quando se ri. “Toma, era só para te entregar isto”. E estende-me um grande estojo com imensos lápis e canetas lá dentro.  Ordena-me, “escreve, TENS DE ESCREVER!!!” Abro as mãos e seguro no estojo pesadíssimo, e ela vira as costas e faz o seu caminho de regresso, sem dizer mais nada. Nunca mais a vi.

Foto de Belisa Isabel.

Just like being naked