Os sentidos da música com Mathilda

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fotografia da Susana Costa

Volto a partilhar, mais uma vez, a série de entrevistas que mantenho para o site da revista ‘Gerador’. Essa série chama-se, justamente, os  sentidos da música e explora o universo amplo das sinestesias — a relação da música com os nossos sentidos e memória. A última entrevistada foi a ‘Mathilda’. Para a conhecerem melhor, é só clicar aqui 🙂

“Se pudesses desenhar e pintar a tua música, como seria e que cores teria?

Amarelo torrado. Foi a cor que, sem querer, sinto que ficou associada à imagem da Mathilda e encaixa muito bem! Porque as músicas que escrevemos não são felizes, não, mas também não são tristes – estão algures entre o ser e o não ser. E, para mim, o amarelo torrado pinta-as na perfeição.”

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A rebelião de Sísifo não tem fim

Um pequeno texto de alguns anos que ainda não tinha sido publicado aqui 🙂 Por curiosidade,  contexto, e perceberem melhor quem foi Sileno (mestre de Dionísio), deixo este excerto:

“Reza a antiga lenda que o rei Midas perseguiu-o na floresta, durante longo tempo, sem conseguir apanhá-lo. Quando, por fim, ele veio a cair em suas mãos, perguntou-lhe qual dentre as coisas era a melhor e a mais preferível para o homem. Obstinado e imóvel, calava-se; até que, forçado pelo rei, irrompeu finalmente, por entre um riso amarelo, nestas palavras: – Estirpe miserável e efémera, filhos do acaso e do tormento! Por que me obrigas a dizer-te o que seria para ti mais salutar não ouvir? O melhor de tudo é para ti inteiramente inatingível: não ter nascido, não ser, nada ser. Depois disso, porém, o melhor para ti é logo morrer” Nietzsche, O nascimento da tragédia.

Sileno mostra-te o espelho enquanto ri e tu sabes que não podes fugir dele. Ri-se como nunca se riu antes enquanto te mostra e tu suplicas. Estás prestes a ser esmagado pela pedra que se diz realidade feia. Sabes que giras, giras e giras. Sabes que rodas, rodas e rodas. Sabes que vais e vens e tornas a voltar. Não há fim e já não avistas o princípio dos princípios. E seres-te o eterno meio não tem muita relevância neste mundo que se pensa feito para fins. Queres chegar à conclusão? A pedra que carregas e que te vai fazer voltar não deixa. Queres ser feliz e concluso no final? A pedra continua a pesar nas costas curvadas de cicatrizes. Mas confessa, metade dessas cicatrizes podem ser, afinal, tu.  Para que anseias tanto o fim se depois já não podes caminhar nem ter pés sujos e rasgados? A pedra, a pedra. O teu problema, e mais uma vez não me mintas, não é tanto o fim cheio de nada que te chateia, mas não pegares a pedra que amas. Onde está a pedra que amas? Pára de ser cobarde, escolhe e assume o teu lamento. Diz a Sileno e a todos os Deuses que te querem. Não fujas do espelho e afirma ‘Eu hei-de amar uma pedra’. E ri e ri e ri. Ri de mim, de ti, de Sileno e do mundo todo. E ri e ri e ri. Ri de mim, de ti, de Sileno e do mundo todo. Sileno mostra-te o espelho enquanto ri e tu sabes que não podes fugir dele. Tu hás-de amar esta pedra. Eu amo esta pedra.

Entrevista|Rodrigo de Matos

Se parássemos  para reflectir em certas expressões idiomáticas que utilizamos no nosso dia-a-dia, certamente descobriríamos  todo um outro mundo de significados que, a priori, deixamos sempre ficar para trás. Foi a esse mesmo desafio que o cartoonista do ‘Semanário Expresso’, Rodrigo de Matos, respondeu, e o resultado pode ser apreciado na sua primeira mostra individual de pintura e ilustração — ‘Punacotheca’, em inglês, e ‘Pinacotroca’, em português — patente na ‘Creative Macau’ (Museu de Arte macaense).  “Formamos na nossa cabeça, de forma quase automática, um “mundo” de significado que é o do que foi compreendido. Mas, pelo caminho, foram destruídos, naquele processo de selecção, outros mundos parecidos: os dos segundos significados das palavras utilizadas, os de palavras que soam parecido…”, diz-me o autor da exposição. São, precisamente, esses mesmos duplos sentidos das palavras que  Rodrigo resgata imageticamente abrindo, dessa forma, a passagem a um mundo que é, sim , visualmente absurdo, mas que esteve sempre lá, implícita e inconscientemente. Explora-se, assim, os limites da língua falada, tenta-se encontrar as tais ‘falhas de comunicação’ que podem conduzir a situações caricatas e também elas surreais, mas abrindo o leque e trazendo à liça a imagem, que também é, afinal, uma forma de linguagem. A viver, actualmente, em Macau, Rodrigo publica os seus cartoons no semanário português,  a par de outros títulos da imprensa  macaense — o ‘Macau Daily Times’ e o ‘Ponto Final’. Começou a sua carreira como jornalista de imprensa escrita, mas é como cartoonista que completa já dez anos de carreira. A exposição integra o festival literário Rota das Letras e estará patente ao público até dia 21 deste mês, Abril. Aqui fica a entrevista que Rodrigo de Matos me concedeu, há dias, por e-mail.

Foto de Rodrigo de Matos.

Mesmo nos cartoons do Expresso, o Rodrigo acaba sempre por brincar com as palavras ou construir certos trocadilhos. Sempre gostou de fazer isso? O que é que esse jogo de palavras tem de tão interessante, para si?

É verdade. Faço isso nos títulos dos cartoons. No entanto, os cartoons nunca são desenvolvidos à volta de um título. Só depois de prontos é que vou arranjar um título para eles. Começa aí a busca de um trocadilho que encaixe. Nem sempre é possível e, às vezes, é mesmo um pouco forçado. Na verdade, quando cresci, no Brasil, onde vivi até aos 15 anos, sempre gostei de humor, mas o trocadilho propriamente dito não era tão forte lá, ou pelo menos não tão explorado. Quando cheguei a Portugal em 1990, vi uma reposição de O Tal Canal, do Herman José, que adorei, e reparei que muitas das piadas resultavam de jogos de palavras. Achei interessante. Tenho um tio que está sempre a fazer piadas do género e, sempre que me encontrava com ele, perdíamo-nos de riso a inventar trocadilhos. O que os trocadilhos têm de interessante para mim é que exploram os limites, as falhas da comunicação que resultam da similaridade das palavras. Imaginar histórias à volta de uma compreensão equivocada de algo que é dito é terreno fértil para a criatividade. Isto tem um potencial imenso.

Mas acha que a linguagem, no seu cômputo geral, tem mesmo esse condão de estimular o nosso lado imagético ou, também, se pode dar o contrário? Linguagem e imagem podem caminhar sempre lado a lado?

O processo mental implicado na linguagem é o que é interessante, para não falar do que leva à compreensão de uma piada. Quando alguém nos comunica algo, há um processo de selecção realizado a nível cerebral, de forma quase imediata, que selecciona os significados, optando pelos que fazem sentido num determinado contexto e levando assim à compreensão (maior ou menor) do que é dito. Formamos na nossa cabeça, de forma quase automática, um “mundo” de significado que é o do que foi compreendido. Mas, pelo caminho, foram destruídos, naquele processo de selecção, outros mundos parecidos: os dos segundos significados das palavras utilizadas, os de palavras que soam parecido, etc. Ora, são esses mundos que eu tento ressuscitar ou, pelo menos, os mais engraçados ou os que resultam em imagens mais absurdas. Sempre partindo da palavra para a imagem. Mas claro que poderia fazer o contrário, como é óbvio. Tudo é válido nisto da criatividade.

Foto de Rodrigo de Matos.

“Open Mind”/”Mente Aberta”

Já referiu que, de momento, está mais interessado no ‘como é feito, do que o que é feito’. Ao contrário do cartoon, a que associamos sempre uma mensagem e não há tanto espaço para o depuralismo técnico, apenas queria, com os trabalhos desta exposição, explorar o lado absurdo da imagem e a técnica?

Não diria “de momento”, porque tive de conciliar a preparação dos quadros desta exposição com a produção semanal do cartoon que publico no Expresso, onde o que interessa não é tanto o “como” mais mais “o quê”. Portanto, não se tratou de uma nova fase na minha carreira, mas simplesmente da resposta a um desafio, com umas regras diferentes, que encarei sem abrir mão da minha linha principal de trabalho, que é o cartoon editorial. A intenção foi justamente essa que referiu: apurar a técnica e realizar um tipo de trabalho diferente daquele a que estou mais habituado, explorando gratuitamente o absurdo, sem nenhuma preocupação de ordem político-crítica.

Há a ideia de que o entendimento de um trocadilho ou jogo de palavras está sempre condicionado por questões idiomáticas, ou não será tanto assim? Quais foram os desafios, para si, nesse sentido?

Sim, isso acontece a maior parte das vezes e aqui o desafio foi encontrar trocadilhos que resultassem tanto em inglês como em português. Nesta exposição, os trabalhos que apenas têm título em inglês são à volta de expressões e termos que nós já adoptámos ou percebemos facilmente, como “Babysitter” ou “Brainstorm”. Penso ter conseguido manter alguma coerência a esse nível. Há uns poucos que apenas resultam em inglês, mas são raros. O “trocadilho”, aqui, acontece na passagem da linguagem para a imagem, mas há um trabalho, apenas um, em que o título é mesmo um trocadilho, em que a palavra é substituída por outra que soa de forma parecida: “Milk Sheikh”. Há ainda um outro chamado “Comité Permanente”, cuja tradução para inglês é “Standing Committee” – neste, há uma piada para o português e outra para o inglês. É, por assim dizer, um 2 em 1.

Foto de Rodrigo de Matos.

“Babysitter”

Foto de Rodrigo de Matos.

“Milk Sheikh”

 

Mas mesmo que as imagens da exposição partam, sempre, desse mesmo jogo de palavras, o lado absurdo que encetam não as torna mais plurais, universais? Ou não se livram, por completo, do contexto da língua?

Concordo que uma pessoa possa achar piada a alguns destes quadros mesmo sem ler o título. Irá certamente perder alguma coisa, no entanto.

Por curiosidade, é fã do movimento surrealista? Acabou por ser, de alguma forma, uma influência?

Quando eu fiz 15 anos, um tio meu me ofereceu um livro de arte sobre a vida e obra de Salvador Dalí, um daqueles livros profusamente ilustrados da Taschen. Fiquei fascinado, pois nunca tinha visto nada assim. Aquilo despertou-me para o surrealismo e tentei saber mais coisas sobre o movimento. Em pouco tempo, descobri o “Manifesto Surrealista” de André Breton e passei a procurar coisas sobre o tema na biblioteca (estávamos na era pré-Internet). Encontrei nos livros e enciclopédias a obra de Magritte, Miró, Ernst e outros… e li as obras completas do García Lorca. No liceu, em Portimão, na disciplina de História das Artes, acabei por conhecer as outras correntes do modernismo, todas elas igualmente interessantes… mas o surrealismo continuava a ser a minha preferida. As minhas primeiras experiências com tintas acrílicas datam dessa época e a influência surrealista é bem evidente. Penso que o que o surrealismo trouxe para mim foi a ideia de libertação das limitações do mundo físico e da vida real. Nos sonhos, tudo é possível. É um mundo de criatividade pura, transbordante. Mas hoje em dia, como é óbvio, não tento fazer o que os artistas do surrealismo já fizeram no passado. Não faria sentido. A minha obra não é surrealismo, mas o surrealismo esteve muito presente nas minhas origens e deixou uma marca profunda em mim, que não rejeito.

Foto de Rodrigo de Matos.

Human rights| Direitos humanos

Quando deixou o jornalismo, como foi mudar a perspectiva profissional ao fim de um tempo?

Considero que a transição foi pacífica. Até porque não deixei o jornalismo completamente. Deixei-o sim, sob a forma escrita, mas para explorar uma outra linguagem, também ela jornalística, de certa forma. Pelo menos eu considero assim. Da maneira como eu vejo, o cartoon tem uma componente jornalística importante, que me faz sentir que não abandonei de todo a profissão.

Ter sido jornalista ofereceu-lhe alicerces mais fortes para o seu trabalho enquanto cartoonista ou, pelo contrário, teve de ter o cuidado para não limitar em demasia a sua imaginação?

Acredito que tenho tirado o maior partido dessa experiência. O meu olhar para o mundo continua a ser o de um jornalista. E não penso que isso seja ou tenha sido castrante em termos criativos em nenhum momento, muito pelo contrário. Repare, não é à toa que o cartoon editorial se chama “editorial”. Não tem de ter a neutralidade e objectividade do jornalismo noticioso, aproximando-se muito mais da crónica opinativa. Por outro lado, trabalhar no jornalismo obriga-nos a desenvolver o poder de síntese, o sentido de detecção da importância das coisas, o querer saber mais e mais e ir ao fundo das questões em busca do seu epicentro. Tudo isso continua a ser valioso para mim, mesmo enquanto cartoonista.

A imprensa portuguesa em Macau está sujeita ao mesmo escrutínio e controlo que a imprensa chinesa? Tem a liberdade de que necessita?

Bem, o que me permite estar aqui hoje, como correspondente de um jornal da Europa com um tipo de trabalho como o que realizo, e publicando inclusive na imprensa local, é justamente o facto de Macau gozar de um estatuto e leis especiais – garantidos na sua Lei Básica, que é uma espécie de mini-constituição – semelhantes aos de Hong Kong, e ambos distintos dos do resto da China. A liberdade de imprensa aqui é assegurada por lei, o que não quer dizer que não haja pressões de vária ordem (como aliás em qualquer parte do mundo dito livre), mas nada que se compare ao regime censório que vigora do outro lado da fronteira. Aqui temos acesso sem restrições à Internet e nada do que publicamos tem de ser passado pelo crivo de qualquer organismo oficial. Mesmo auto-censura é algo que nunca me sinto compelido a praticar. Os únicos limites que me imponho são os do que pessoalmente considero relevante, acertado, inteligente e engraçado. Acho que a isto se pode chamar liberdade, sim.