Mais papel estragado

Vamos voltar a estragar mais papel em 2020 😉

De Nietzsche a Camus, Sísifo somos todos nós.

 

Se há equívoco no qual a sociedade contemporânea se enreda é o de que nós temos uma predisposição inabalável para a sobrevivência, um medo terrível de morte, e o que importa, acima de tudo, é o instinto de nos mantermos, aquele instinto de constância que nos faz, sempre, ir até ao fim. Para meu espanto li, recentemente, num artigo qualquer que se destacou perante os meus olhos no facebook, creio sem me lembrar bem que do DN, que o nosso cérebro está mesmo programado para não suportarmos  a ideia da nossa morte. Por um lado compreendo isso, porque se biologicamente o objectivo é nos mantermos neste mundo, então é normal e, por um lado, saudável sentir esse pavor perante Thanatos (na mitologia grega a personificação da morte). E é, sim, completamente extraordinário pensar que todos os nossos órgãos e filamentos estão, de facto, desenhados de determinada forma e estão alojados naquela região específica do nosso corpo para poderem funcionar e, consequentemente, nos darem vida. Ainda mais fascinante isto se torna se tivermos em conta que a história da evolução do nosso corpo também está ligada, de forma intrínseca, ao meio-ambiente em que vivemos. Não é extraordinário sabermos que cada espécie desenvolve os seus próprios mecanismos de defesa tendo em conta, em específico, os seus predadores? Ou que a forma como essa mesma espécie se alimenta se correlaciona com o seu espaço envolvente e isso, de facto, também influencia as suas particularidades físicas? Basta pensar no papa-formigas, por exemplo, e na razão pela qual tem um focinho tão alongado. 

Essa, porém, é só uma face da moeda, e o erro está em pensarmos que essa face significa o todo. Por isso é que os life coachs existem e apostam no discurso do ama-te a ti mesmo, só tu é que importas, continua custe o que custar, tens de resistir, não vaciles, não ponhas cara feia, não podes estar triste. Olha a vida de sonho que estás a perder. Por isso  é que existe aquele determinado tipo de empreendedor que foi impingido, literalmente, à minha geração e tomou de assalto as nossas universidades (tive pesadelos contigo Miguel Gonçalves) para o qual a resistência tem de ser levada ao limite. (A sério Miguel Gonçalves. Eu estava a ler Os Maias no meu quarto. Tu entraste, de rompante, e disseste “nãaaaaaaaaaaao!!!!!! O Eça é depressivo. Se leres Os Maias nunca vais arranjar emprego e vais acabar depressiva também.” Depois chamaste o Gustavo Santos e sabes o que ele fez? Obrigou-me a ler um livro dele e ofereceu-me outro…COM DEDICATÓRIA. AHHHHHHHHHH!!!!!). Por essa mesma razão é que já nem sabemos chorar quando precisamos, admitirmos perante nós próprios que algo não nos está a fazer bem e que, por vezes, o melhor é parar para decidir como ir em frente. É completamente soberba a forma como deliramos quando vemos alguém, em pleno canal aberto de televisão, gritar a outra pessoa que é uma merda e aplaudimos… sim, senhor … porque é isso que nos põe “finos” para a vida e nos faz criar resistências. Há sempre que continuar e, de preferência, conseguindo alcançar a ideia que a sociedade tem de sucesso e do que é bom. Se conseguirmos isso, então porque havemos de estar mal?

 Reparem, até para justificar a existência da religião se utiliza o medo humano da morte. Torna-a mais digerível porque temos a possibilidade de uma outra boa vida no céu — pelo menos é no que os crentes acreditam. Contudo, nem com isso consigo concordar plenamente porque me parece uma justificação bastante incompleta. Não me considero católica e há uma particularidade sui generis em mim: assim que entro numa igreja sinto-me bastante estranha, trata-se de uma espécie de desconforto. Quando era pequenina e via um padre com as suas vestes chorava sempre. Nunca consegui compreender o porquê. Só sei que nas escassas vezes em que me levavam à missa ficava espantada a olhar para as imagens dos santos, enquanto tentava imaginar que histórias de vida teriam, e reparava como, geralmente, havia sempre alguém com ar mais abatido, derrotado, com uma lágrima a cair, a olhar para a cruz, a pedir-lhe encarecidamente para o livrar de um martírio qualquer que não tem fim — um martírio que se lhe apresenta como uma pedra pesada que tem de carregar todos os dias e que nunca chega ao seu poiso, tal como a de Sísifo, e que clama por alívio. Por conseguir entender isto é que sempre achei estranho justificar a religião com a ideia tenebrosa de morte, e não com o que passamos na nossa vida pelo facto de muitos sentirem que não há uma resposta ou uma mão humana capazes de lhes dar o que precisam ou pelo facto de, no festival de vaidades, veleidades e falsidades em que a sociedade vive, quase sermos obrigados a fragmentar-nos e a vestir a nossa persona como protecção. Parece contraditório, eu sei, mas mesmo no jogo bacoco de regras estritas em que a religião católica caiu, se tivermos em conta a solidão, a falta de tempo e o cumprimento de obrigações da sociedade contemporânea, pode parecer libertadora a ideia de um ser etério que tudo sabe e, por isso mesmo, nos conhece e compreende as nossas razões. Razões essas que, muitas das vezes, não conseguimos partilhar (por não sabermos como) ou nas quais ninguém repara.

Mas eis que chegamos ao ponto certo — a esse ser que nos dá tantas dores de cabeça por nos reconhecermos nele, em muitas situações, mas sem conseguirmos compreender o porquê de continuar, incessantemente, a levar a pedra até ao cimo da montanha se, depois, se depara com o absurdo de ter de fazer tudo uma e outra vez sem nunca chegar à conclusão da sua acção. Esse absurdo ser dá pelo nome de Sísifo — adoramo-lo e odiamo-lo ao mesmo tempo porque, tal como Kundera diria, corresponde ao espelho da nossa própria miséria, a tal Litost, que nem sempre nos é totalmente compreensível e cognoscível. Mas quem foi Sísifo? Astuto, conseguiu enganar Thanatos (a morte), por duas vezes, e por causa disso mesmo foi condenado, por toda a eternidade, a rolar uma pedra montanha acima e a repetir, ad eternum, este mesmo processo. Podemos associar Sísifo  a diversas variantes filosóficas e artísticas — uma delas, ao eterno retorno de Nietzsche e à sua consequente noção de espaço-tempo. Pois a noção nietzschiana do eterno-retorno coloca-nos perante o mesmo problema de como suportar algo que se repete eternamente. Ou seja, vai ao encontro da pergunta fulcral: qual o sentido da vida pelo qual suportamos viver, mesmo que se repita infinitamente? Da mesma forma que Sísifo nos faz colocar a nós próprios a questão: qual a pedra que suportaríamos carregar uma e outra vez até ao cumo da montanha? E em prol do quê? É então que chegamos à conclusão que, talvez, o sentido da vida não esteja correlacionado com a noção de finalidade, com o objectivo do fim, mas com a noção do durante. E é tendo em conta essa mesma noção do entremeio entre o nascimento e a morte que conseguimos entender duas coisas extremamente importantes: o ser-humano não tem de ter um sentido de resistência sem limite capaz de aplacar tudo. Em segundo lugar, a sobrevivência e a  ligação a ela só se dá, se não dissociarem o ser-humano do seu gosto pelo durante, tenha ele as pedras que tiver, coloque o ser.humano numa posição superior ou inferior — caso o caro leitor ache que essa distinção existe mesmo. Isso é consigo. 

No seu ensaio “O Mito de Sísifo”, Albert Camus começa mesmo por dizer que a única questão filosófica que interessa verdadeiramente é a do sentido da vida, tudo o resto é fútil. A razão pela qual faz esta asserção é porque é, somente, ela que está relacionada com a manutenção da nossa vida ou não. Quais as razões que fazem o ser-humano viver? Quais as razões que fazem o ser humano abdicar da vida? “Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, aparece em seguida. São jogos.”  Por isso mesmo é que dá o exemplo de Galileu pelo facto de ter renegado a sua verdade científica quando esta lhe pôs a vida em perigo. Perante a questão da vida e da morte, a questão do heliocentrismo ou do geocentrismo parece, assim, irrelevante. Será que alguém tem mesmo a coragem de pôr termo à sua vida por uma mera questão intelectual ou de conhecimento, seja essa questão científica ou de qualquer outra área? Pondo a pergunta em outros moldes, valerá a pena levar tão a peito uma discussão em que tento explicar que Os Maias não representam o realismo, enquanto a outra pessoa jura a pés juntos que sim? Não, não vale. Até porque teria mais em que ocupar o meu tempo e a minha luta é, mesmo. salvaguardar as minhas horas para algo em que eu me reveja, honestamente. Mas Camus também diz isto, “Vejo outras [pessoas] que paradoxalmente se fazem matar pelas ideias ou as ilusões que lhes proporcionam uma razão de viver (o que se chama uma razão de viver é, ao mesmo tempo, uma excelente razão para morrer)”. O que está em parênteses é que cativou a minha atenção. Reparem, “o que se chama uma razão de viver é, ao mesmo tempo, uma excelente razão para morrer”. E só isto explica que a nossa tal predisposição inabalável para a sobrevivência não é verdadeira,  o medo da morte não absorve tudo e que Eros (a nossa pulsão de vida) e Thanatos (a noite) andam lado a lado, numa forma de auto-regulação mútua. Num ensaio brilhante em que Camus disserta sobre o suicídio relacionando a sensível temática a Sísifo, o filósofo explora o absurdo do acto e essa tal atracção pelo nada que parece melhor do que a própria vida. Por este prisma, se não deixarmos escapar a tal frase — o que se chama uma razão de viver é, ao mesmo tempo, uma excelente razão para morrer — reparamos que a vida assume um papel superior ao simples respirar. A morte, para alguns, pode mesmo significar, por isso mesmo, a sua maior afirmação de vida. Como Camus explica, pode ser o reconhecimento de que fomos ultrapassados pela ela, mas se há esse reconhecimento, é porque há a compreensão de que não nos reconhecemos no nosso meio envolvente. À primeira impressão, todas as ideias aqui expressas podem parecer derrotistas, mas não o são. A nossa própria manutenção requer o reconhecimento tanto da vida como do seu oposto e, no fundo, ninguém consegue rolar uma pedra, infinitamente, por um equívoco ou mentira, mesmo que a finalidade se revele, a priori, boa. Thanatos pode servir para isso mesmo, um aviso das mentiras que dizemos a nós próprios para nos fazer procurar, contraditoriamente num impulso de vida, algo com que nos identifiquemos. Só o reconhecimento disso mesmo, essa constatação para nós próprios, é que nos livra de uma espiral recessiva que nos pode, mesmo, levar a crer que não há saída e tomar uma atitude desesperada como a do suicídio. O pior que se pode fazer  a uma pessoa que está a passar por alguma situação difícil é, por isso mesmo, impedi-la de uma qualquer expressão de tristeza, fazê-la engolir as lágrimas e mandá-la continuar como se nada fosse. O que estamos a fazer é eliminar qualquer possibilidade dessa pessoa descobrir o que está a minar e poder continuar em frente, numa outra direcção melhor para si. 

O empreendedorismo tóxico que se tentou inculcar após a crise de 2008 acabou por, infelizmente, agravar toda esta situação. A divisão social que se estabeleceu a partir daí, entre vencedores e falhados, não só foi desastrosa e perniciosa como tentou vender a ideia de que aguentar e dar tudo por tudo era sinal de resistência. Isto porque, lá está, faziam-nos crer que essa resiliência era ilimitada e duraria, para sempre, em prol do ideal que a sociedade tem de sucesso. O resultado é uma geração Millenniall cansada, deprimida, que se sente sozinha e incompreendida perante um mundo em constante mudança, tanto social como laboral. Não sou só eu que o digo, há já vários artigos e estudos que indicam que os casos de depressão e burnout aumentam nas gerações mais novas. É só pesquisar. Quando se fala, institucionalmente, na minha geração, geralmente diz-se que, por natureza, não gostamos de estar muito tempo num determinado sítio laboral, somos instáveis e não fiéis às empresas. Há, no entanto, outra coisa que é esquecida. Se nós somos assim, é porque as próprias empresas apostaram na rotatividade dos seus trabalhadores e, nas universidades, já fomos preparados para esquecermos a ideia de um emprego para a vida toda. 

O facto de se reconhecer que a resistência não é infinita, não é uma desistência, é, antes, uma auto-regulação nossa indicadora de que, talvez, o nosso caminho tenha de ser outro. A constatação de que, em qualquer situação, talvez estivessemos apaixonados pela ideia de algo e não por esse algo em si. Ou seja, talvez estivéssemos enamorados pelo final da montanha e não pela pedra do durante. Sísifo tem amar a sua pedra assim como nós a nossa. Se a nossa noção de tempo se amplifica e se a pedra  tornar as nossas horas penosas de forma excessiva, então há que reconhecer isso e amar outra pedra. Devemos encarar isso não como uma fatalidade mas como uma constatação, uma tomada de posição nossa. No fundo, é esta a escapatório do absurdo de Sísifo e do eterno-retorno de Nietzsche. Estamos a falar de amor-fati — se eu amo mesmo a pedra, então consigo suportar as suas consequências ad eternum. Era isso mesmo que A Insustentável leveza do Ser tratava e Kundera tentava explicar com as dicotomias força / fraqueza e peso/leveza, representadas por Tomás e Teresa. 

A libertação do absurdo, tal como Camus relembra, dá-se com a constatação de que Sísifo pode se sentir feliz se a pedra for a escolhida por ele e representar a sua própria auto-determinação. Então, amará também o seu peso e o seu próprio tempo. É desta forma magistral que termina o seu Mito de Sísifo:  “Toda a alegria silenciosa de Sísifo está aí. Seu destino lhe pertence. Seu rochedo é sua questão. Da mesma forma o homem absurdo, quando contempla o seu tormento, faz calar todos os ídolos. No universo subitamente restituído ao seu silêncio, elevam-se as mil pequenas vozes maravilhadas da terra. Apelos inconscientes e secretos, convites de todos os rostos, são o reverso necessário e o preço da vitória. Não existe sol sem sombra, e é preciso conhecer a noite. O homem absurdo diz sim e seu esforço não acaba mais. Se há um destino pessoal, não há nenhuma destinação superior ou, pelo menos, só existe uma, que ele julga fatal e desprezível. No mais, ele se tem como senhor de seus dias. Nesse instante sutil em que o homem se volta sobre sua vida, Sísifo, vindo de novo para seu rochedo, contempla essa seqüência de atos sem nexo que se torna seu destino, criado por ele, unificado sob o olhar de sua memória e em breve selado por sua morte. Assim, convencido da origem toda humana de tudo o que é humano, cego que quer ver e que sabe que a noite não tem fim, ele está sempre caminhando. O rochedo continua a rolar. Deixo Sísifo no sopé da montanha! Sempre se reencontra seu fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e levanta os rochedos. Ele também acha que tudo está bem. Esse universo doravante sem senhor não lhe parece nem estéril nem fútil. Cada um dos grãos dessa pedra, cada clarão mineral dessa montanha cheia de noite, só para ele forma um mundo. A própria luta em direção aos cimos é suficiente para preencher um coração humano. É preciso imaginar Sísifo feliz.”

Era uma vez… uma “Branca de Neve” escravizada, sem o seu beijo

O seguinte artigo foi publicado, originalmente, dia 15 de Setembro de 2019, no site Comunidade Cultura e Arte

Se algo ficou das minhas estadias na aldeia, enquanto criança, na casa da avó, foram as histórias, muitas histórias. Sempre 5 ou 6 contadas logo de uma assentada porque assim eu o exigia (para desespero da senhora e gáudio meu) e isto quando não pedia para voltar a repetir a mesma umas 2 ou 3 vezes. O bom é que tive direito a todo o cliché associado aos contos e, isso, fica sempre gravado lá no baú da nossa primeira infância ― noites à lareira, no escano (casa antiga) a ouvir o crepitar da lenha, eu a moer o juízo à avó para contar mais, “só mais uma”, e a avó a tentar, por todos os meios, persuadir-me para ir para a cama e já com uma ligeira vontade de me ir ao gasganete … enfim, quem nunca ?! As histórias não eram lidas, até porque a minha avó não tinha livros infantis em casa, nada disso, eram ‘contadas’ – daí advém a palavra ‘conto’, algo intimamente ligado à oralidade – o que só melhorava todo o quadro. Quando não se é um leitor exímio ou muito bom, há sempre uma tendência, nem que seja ligeira, para se ficar preso ao livro e ao acto da leitura. Uma vez que as pequenas histórias são óptimas para as decorarmos, então torna-se mais fácil para quem as conta apropriar-se delas, ser mais espontâneo, acrescentar um ponto aqui e ali sempre que se quiser, tal como se estivesse a contar uma novidade a um amigo ou a ter uma conversa real. Acreditem em mim, este treino é maravilhoso e faz magia à mente. Daí podemos perceber a razão pela qual a maioria dos contos vem do povo, das raízes populares, sem aqui entrar em jogo a questão da classe social. Oralmente não há outra alternativa senão recorrer-se à espontaneidade e, para quem ouve, é isso mesmo que diverte.

A primeira de todas as histórias era sempre a Carochinha, depois vinha a Branca de Neve, a Gata Borralheira (na altura ainda não conhecia o nome Cinderela), a Capuchinho Vermelho, O Lobo Mau e os Sete Cabritinhos e, geralmente, acabava com a fábula do Lobo e da Raposa que eu adorava. Com séculos e séculos de tradição oral, os irmãos Grimm foram os principais responsáveis pela compilação em formato escrito destes contos, juntando-se a outros nomes igualmente importantíssimos que, também, vão ser abordados neste artigo como, por exemplo, Giambattista Basile e Perrault. Desde as suas versões originais até à forma como chegaram até nós muito se modificou. Convém relembrar que foram sofrendo alterações, até nas próprias edições dos irmãos Grimm. Na primeira edição lançada pela dupla, as histórias foram retratadas de forma mais fiel, mais crua e sem floreados, respeitando a tradição oral. Na última edição, como cedência ao gosto da classe média e erudita, os contos foram alterados, foram omitidas partes importantes e ficaram, significamente, diferentes. Daí, quando se fala nas compilações dos dois irmãos mais conhecidos dos contos de fadas, convém relembrar que, para se ir directamente à fonte, não há nada melhor do que a primeira edição. Mais tarde, nasceu um senhor com o distinto nome Walt Disney (nada conhecido certo?), responsável pela primeira longa metragem de animação da história, a Branca de Neve, em 1937, e criador de uma empresa cinematográfica com uns tentáculos tão longos capazes de abarcar quase tudo no que concerne à animação e entretenimento infanto-juvenil. Então, ainda mais bonitinhos e floreados ficaram, tendo em conta os públicos infantis para os quais a Disney, no início, se dirigia.

Não nos podemos esquecer que a sociedade, embora com determinados aspectos que perduram, também se vai modificando – é a chamada mudança na continuidade – e é disso mesmo que todos acabam por ir atrás. Tendo em conta esse aspecto, e agora, o que resta? Desde uma adoração sem refreio até a um ódio visceral, desde o sonho até à brutalidade, especulações e acusações de contribuírem para a futilidade e rebaixamento da mulher, muito se tem dito sobre estas histórias de encantar e aterrorizar. Não quero entrar nesse jogo radical de opostos (nem tanto ao mar nem tanto à terra). O meu propósito vai ser, antes, reflectir sobre a importância da oralidade das histórias, a função principal destes contos e, por fim, discorrer sobre as diversas versões que, afinal, são mais vastas do que o monopólio Disney. A principal questão é esta. Por que razão é que passado tanto tempo ainda nos sentimos, de alguma forma, ligados a estas histórias? Convém relembrar que já haviam sido contadas à minha avó e a minha avó , por conseguinte, contou-as a mim, sem eu suspeitar que tivesse ouvido falar do velho Walt ou dos Grimm. Curioso que agora, em quase todos os natais, gosta de ver a Cinderela (Gata Borralheira) quando passa na televisão. A reacção é sempre a mesma, nunca falha. Primeiro ri-se muito, depois chega ao fim e diz, “oh, só fantochadas. Nunca ouvi dizer que os ratos e os periquitos tivessem ajudado a Cinderela a costurar o vestido. Sinceramente, este filme é só bicharada.”

Os contos como reflexo das sociedades

Grande parte dos contos que se pensam ser do norte europeu e fizeram a alegria do romantismo alemão (que Walt Disney amava), principalmente por aliarem, por um lado, a candura e, por outro, o terror, não têm uma data certa para o seu surgimento. O facto de terem sido transmitidos oralmente dificultava o estabelecimento de datas assim como a lembrança da sua verdadeira origem. Portanto, quando se diz que, por exemplo, determinado conto tem origem em um determinado local, também é preciso ter cuidado porque é possível alguém rebater que, do outro lado do mundo, há uma outra história com aspectos bastante semelhantes. Confesso, portanto, que é difícil jogarmos aqui no campo das certezas. Mas, geralmente, considera-se a era medieval e anterior como o verdadeiro ponto de partida. Ainda sem Gutemberg (época em que os livros eram manuscritos e, por isso mesmo, um bem raro até para as classes mais altas) e sem Tesla e Edison, que nos deram esse bem precioso que dá pelo nome electricidade e tornou possível todo o desenvolvimento tecnológico posterior, as histórias contadas à lareira constituíam a única forma de cultura criativa e imagética das populações, dos camponeses, acima de tudo. Era a forma de fabularem, terem o seu folclore e desenvolverem todos os aspectos mentais, de comunicação, socialização e criação que todo o acto de contar exige. Não liam livros, era verdade, mas liam palavras.

Outro ponto importante a considerar é a forma como a noção de infância e adolescência evoluiu. O trabalho infantil e a brutalidade dos pais não eram considerados maus tratos (ainda bem que isso mudou totalmente). Passada a primeira infância, transitava-se para a idade adulta e, de alguma forma, isso está explícito nos contos. Na versão dos irmãos Grimm da Branca de Neve, por exemplo, esta tem sete anos quando se perde na floresta e encontra a casa dos sete anões. Na versão da Disney, por alguma razão ela não aparece como uma criança, no máximo, como adolescente ou no final da adolescência. Conseguem imaginar, actualmente, uma criança de sete perdida e sozinha numa floresta? Mas mais desconcertante ainda, conseguem imaginar uma mulher adulta, para os nossos parâmetros, com inveja da beleza de uma criança? A adolescência e a infância só passaram a ser consideradas e levadas em conta com outros olhos após as duas guerras mundiais, antes disso ou se trabalhava, ou se trabalhava. Nas classes mais baixas essa realidade era, ainda, mais pungente. Não admira, portanto, os contos estarem repletos de crianças obrigadas a trabalhos forçados e não haver tanto prurido no que diz respeito a pormenores mais aterrorizadores. Temos de perceber que as condições de vida eram muito mais duras e isso fazia, por si só, sociedades mais duras. O facto dessas personagens, afinal numa situação de exclusão, serem, posteriormente, transformadas em príncipes e princesas, não seria mais do que uma vontade catártica de reconhecimento dessas mesmas populações ou, então, a vontade de que algo bom acontecesse depois da calamidade. Por outro lado, também temos de reconhecer que é muito curioso, em alguns contos, serem os próprios aristocratas ou monarcas a receberem o castigo da exclusão e estarem, muitas vezes, numa situação inferior dos comuns mortais da sociedade. Tal leva-nos a outro ponto, numa época sem tablets, pc’s, televisões e telemóveis, também não é linear que estes contos fossem pensados, apenas, para crianças – isso é uma suposição nossa. Depois, quem já esteve em acampamentos ou ouviu histórias à lareira sabe como os pormenores fantasmagóricos e assustadores brotam por si só.

Era uma vez … uma Cinderela sem fada-madrinha

Agora que já temos aqui um contexto devidamente preparado, vamos ao que interessa. No caso da Cinderela ou Gata Borralheira, como quiserem, é melhor deixar estar a bicharada até porque há mesmo bicharada metida ao barulho, mas já lá vamos. Se há conto com várias versões e repercussões em outras partes do mundo, é este mesmo. A par das versões dos irmãos Grimm, de Perrault e de Basile (os dois últimos, respectivamente, poetas e escritores do séculos XVII e XVI que também se dedicaram aos contos de fadas) estima-se que haja versões muito mais antigas com, aproximadamente, 1000 anos. Segundo um artigo do Observador baseado numa publicação do ABC, há versões da história que remontam à antiga China, mas também uma muito significativa que faz a ponte com a Grécia e África. Segundo esse mesmo artigo, essa versão diz respeito a uma menina grega, Ródope que, pela sua imensa beleza, foi raptada por piratas egípcios para ser vendida como escrava. Uma vez no Egipto, foi comprada por um homem que, independentemente da sua bondade, deixou-a à sua sorte no meio das outras mulheres que moravam em sua casa. Por Ródope ter vindo de um país diferente, trataram-na mal e votaram-na a fazer os trabalhos mais pesados. Como amigos só tinha um bando de passarinhos, um macaco e um velho hipopótamos. Foi, então, que o Imperador decidiu organizar um banquete e convidar todas as pessoas. Ródope queria muito ir mas não a deixaram. Decidida a ir à revelia, pôs a sua melhor roupa e calçou uns sapatos de ouro. Um falcão, no entanto, passou por ali e levou os sapatos ao Imperador. Este pensou que era um sinal divino para se casar com a dona e assim o fez. Encontrou Ródope, os sapatos serviram-lhe e casaram.

A versão de Basile é, já, muito diferente com madrastas, fadas, árvores mágicas e o nome Gata Borralheira (a primeira vez que este aparece). Mas é, também, onde ocorre o primeiro crime da nossa protagonista. Nesta versão, o pai de Zezolla (o nome da gata borralheira) enviuvou e casou uma segunda vez. Como a madrasta era bastante má para a enteada, Zezolla queixava-se continuamente à sua governanta, de quem gostava muito. Queria que esta fosse, antes, a mulher do seu pai. Então, Carmosina (o nome da governanta) disse-lhe que a situação se resolveria se Zezolla pedisse à madrasta para lhe dar um vestido velho e já carcomido. Pelo prazer de ver a enteada andrajosa, a madrasta não iria recusar. Então, quando esta se curvasse na arca da roupa velha para ir buscar o vestido, Zezolla só teria de deixar cair o tampo da arca no pescoço da madrasta para a matar. A nossa Gata Borralheira assim o fez e convenceu o pai a casar com a governanta. Mas, para mal de seus pecados, Carmosina afinal tinha mais 6 filhas, trouxe-as para o palácio, obrigou Zezolla a ir para a cozinha e passou a chamá-la Gata Cinderela ou seja, Gata Borralheira. Nesta versão, a fada-madrinha não aparece, literalmente, a Cinderela, mas há fadas. Quando o seu pai, que aqui também a negligenciava, teve de fazer uma viagem a Sardenha (terra das fadas), Zezolla quis que este pedisse à rainha das fadas que lhe enviasse algo. O homem assim o fez. Foi, então, que Gata Borralheira passou a ter na sua posse uma árvore mágica capaz de lhe conceder tudo o que precisasse.

A versão de Basile não constituiu, entretanto, o primeiro registo escrito do conto, na Europa. Antes, já havia aparecido no livro de Bonaventure des Périers, Les Nouvelles Recreations et Joyeux Devis, de 1558. Em 1501 apareceu, igualmente, num sermão entregue em Estrarburgo. A versão de Basile é, no entanto, a primeira mais detalhada e longa. Por isso mesmo, a mais lembrada como sendo a primeira versão escrita.

Apesar da princesa cândida nesta versão ter matado, mais escabrosa ainda é a versão dos irmãos Grimm. Nesta versão, as irmãs chegam a cortar os próprios dedos dos pés e o calcanhar para poderem enganar o Príncipe e calçar os sapatos. No final, quando as irmãs aparecem no casamento de Cinderela, as pombas começam a bicar-lhes os olhos. Não há resquícios de fadas nesta versão, apenas uma árvore e as duas pombas provenientes do túmulo da mãe de Cinderela que a ajudam e lhe concedem tudo o que menina pedir. Neste caso, simbolizam o espírito da mãe. Há, aqui, uma curiosidade interessante. Na versão dos Grimm, há uma parte em que as irmãs atiram uma série de grãos, ervilhas e lentilhas para as cinzas do fogão e obrigam a Cinderela a separar os grãos bons dos maus. Isto faz-me estabelecer a ponte com Eros e Psique: um dos quatro trabalhos que Afrodite dá a Psique consiste, precisamente, na separação de grãos. Há, ainda, um outro conto russo em que uma menina, Vasalisa, também vivia com a sua madrasta e duas meias-irmãs terríveis. Estas mandaram-na atravessar a floresta para ir a casa de uma suposta bruxa pedir fogo mas, afinal, queriam que a bruxa a matasse. Essa mesma bruxa mandou-a fazer uma série de trabalhos, entre os quais separar grãos também. Neste conto não há Príncipes, apenas a capacidade de Vasalisa cumprir as tarefas da bruxa e chegar a casa mais segura de si, com a capacidade de se libertar da madrasta e das irmãs. A menina não tinha, igualmente, uma fada-madrinha, mas uma boneca mágica dada pela mãe, no leito de morte, que lhe fazia as vezes.

A versão da Cinderela de Perrault é a que se aproxima mais da versão da Disney, apenas com uma diferença: no final da versão de Perrault, a madrasta e as irmãs são perdoadas e arrependem-se, na versão da Disney isso não acontece. Outro aspecto que merece ser ressalvado é que a ligação da maldade à fealdade e da beleza à bondade está muito mais demarcado no filme da Disney, de 1950. Nas versões originais a protagonista é sempre descrita como bela, é verdade. Mas na versão dos irmãos Grimm, por exemplo, as irmãs até são caracterizadas como bonitas, embora malévolas.

Quanto a problemas familiares, quem os teve foi também a Branca de Neve. Enganam-se, no entanto, caso pensem que houve beijo no final.

Mas, então, e o beijinho da Branca de Neve?

Pois é, mais um caso de uma jovem vítima de maus tratos familiares, como a Cinderela, que tem de percorrer uma floresta, como a Capuchinho Vermelho, e que acaba por ser desperta por um beijo, como a Bela Adormecida. Estamos a falar, nem mais nem menos, da menina de cabelos tão pretos como ébano, lábios tão vermelhos como o sangue e pele tão branca como a neve. Ela é, isso mesmo, a Branca de Neve.

Mais uma vez, não podemos jogar no campo das certezas quanto à altura em que o conto surgiu. Mas, pelo que se sabe, foi o nosso já conhecido Gianbattista Basile que se responsabilizou pelo que se consta ser o primeiro registo escrito do conto, em 1634, desta feita com o título A Jovem Escrava. Comumente, a Branca de Neve é apontada como sendo do folclore tradicional alemão, porém, a história da jovem escravizada de Basil, considerada a verdadeira precursora, também é apontada como tendo influências da tradição oral italiana. No que diz respeito, então, à primeira versão de 1634, Cilla é irmã de um Barão e, enquanto brincava com outras donzelas da sua idade no jardim, descobre com as suas amigas uma rosa em pleno desabrochar. Decidem, então, fazer uma brincadeira: quem conseguir pular em cima da rosa, mas sem lhe tocar ou fazer cair as suas pétalas, ganha algo no final. Todas saltam mas sem sucesso. Quando chega a vez de Cilla, esta só faz cair uma pétala, mas sem ninguém reparar apanha-a do chão e engole-a. Passados três dias a menina descobre que está grávida dessa mesma pétala e, mesmo tentando esconder a gravidez, dá à luz uma linda menina, Lisa. Várias fadas ocorrem para lhe dar a sua benção e dons, mas uma em particular amaldiçoa-a da seguinte forma, quando chegar aos sete anos, a mãe esquecer-se-á da escova nos cabelos da menina enquanto a penteia, e esta morrerá. Assim aconteceu. Pensando a mãe que a filha estava morta, coloca-a em sete caixões de cristal, num quarto recôndito do palácio. Quando Cilla morre confia a chave ao Barão, o seu irmão, ante a promessa de nunca o abrir. Mais tarde, já quando o barão é casado, a mulher descobre e abre o quarto. Quando vê Lisa nos caixões, extremamente bela, começa a espancá-la brutalmente desferindo-lhe golpes na cabeça, deixando-lhe os olhos roxos e os lábios ensanguentados. Ante tal brutalidade, o pente sai do cabelo da menina (afinal não estava morta) e acorda. Quando o Barão chega a casa e vê Lisa de tal forma desfigurada não a reconhece e pergunta à mulher quem é a menina, esta mente-lhe e diz que é uma escrava. Dessa forma, Lisa passa a condição de escrava e continua a ser brutalmente agredida pela mulher do seu tio. Uma vez, o Barão ausenta-se para uma feira e pergunta a todos da casa, inclusive a Lisa, o que pretendem que traga. Lisa responde que quer uma boneca, uma faca e uma pedra de amolar. Quando o tio lhe entrega o que foi pedido, a menina, escondida, começa a contar toda a sua vida para a boneca e ameaça matar-se com faca, afiada na pedra, caso a boneca não lhe responda. O tio, por sorte, ouve tudo e intervém a tempo. É então que afasta Lisa da mulher, deixa-a recuperar dos maus-tratos desferidos e envia a sua esposa, de novo, para casa dos pais. Como recompensa, deixa a menina casar-se com um homem da sua escolha. Esta versão não tem espelho, floresta nem anões nem beijos mas, além de ter algumas semelhanças com a Bela Adormecida, continua a insistir com o número sete.

É pelos irmãos Grimm que passamos a conhecer os vários pormenores que, actualmente associamos à Branca de Neve : a madrasta, a rainha, o espelho, a maçã, a floresta, os sete anões, o príncipe e o nome Branca de Neve. Mas continua a não haver beijo e, nesta versão, neste caso, a madrasta tem um fim mais malvado. Uma das grandes diferenças face à versão que conhecemos actualmente, esquecida graças ao filme da Disney, é que a madrasta da Branca de Neve vai três vezes, não apenas uma, à cabana dos sete anões. Da primeira vez tenta matá-la com um laço ao apertá-lo demasiado na cintura da protagonista; da segunda é com uma escova de cabelo ( neste apecto em particular fazendo uma ponte com a versão de Basile) e, na terceira vez, aí sim, com uma maçã envenenada. Quanto ao Príncipe, este aparece no final mas não a beija. A Branca de Neve acorda porque,ao tentar levar o caixão para o castelo, o seu amado tropeça e faz o caixão estremecer. É então que a Princesa cospe o pedaço de maçã e acorda. Quanto ao final da história, a madrasta vai à festa de casamento da enteada. É, então, que a obrigam a usar umas botas de ferro em brasa e dançar até morrer. Mais uma vez relembro, a protagonista tinha, apenas, sete anos quando se perdeu na floresta.

Recentemente, surgiu na imprensa (BBC, Público e MAGG) a descoberta de que a Branca de Neve poderia muito bem ter existido. Isto, porque foi encontrada a lápide de Maria Sophia von Erthal que vivia no castelo de Lohr am Main, no norte da Baviera, Alemanha, no século XVIII. Vivia com o seu pai e com a madrasta muito dominadora que favorecia os filhos biológicos. No conto, a madrasta tinha um espelho mágico, ao que parece a zona de Lohr era famosa pelo fabrico de vidro e, ainda mais coincidências, o pai de Maria Sophia tinha uma fábrica de espelhos. Existia, igualmente, por perto, uma floresta conhecida pelos seus animais perigosos e, para se chegar às minas da Baviera, era necessário atravessarem-se sete colinas. Lembro que no conto dos irmãos Grimm a Branca de Neve atravessou sete colinas para chegar à casa dos sete anões. Mas vamos por partes.

Mais uma vez, não podemos falar em certezas, mas há provas subtis que os irmãos Grimm também levaram em conta a versão de Basil, muito mais anterior à vida de Maria Sophia. A fada que castiga Lisa diz que o feitiço se cumprirá quando esta completar sete anos, no conto dos irmãos Grimm a madrasta ordena o assassinato da enteada aos sete. Outra semelhança é a questão da escova. No conto dos Grimm, a segunda vez que a madrasta a intercepta na casa dos anões é com a escova do cabelo; no conto de Basil é a escova que provoca o sono da menina. Outro ponto, sim, na versão de Basil Lisa é de origem aristocrática e vive no palácio, também. Mas toda esta associação com o caso real é muito interessante. Mostra, afinal, como os contos acabam sempre por reflectir aspectos sociais. Relembro o que disse sobre a questão da infância e seus direitos no passado, que eram inexistentes. Não é, portanto, de espantar que, mesmo sem ter uma ligação directa ao conto, estamos perante um caso em que a arte imita a vida ou em que a vida imita a arte. Mas, como na perspectiva dos irmãos Grimm o conto é alemão e como viviam, até, perto de Lohr (fica apenas a 50 quilómetros de Hanau, onde nasceram) é normal que tivessem aproveitado a geografia da região para colocarem mais descrições que não estavam tão bem estabelecidas na versão de Basil. O que me faz dizer que o conto tem raízes mais antigas à história de Maria Sophia, mesmo na versão da dupla irmãos, é o facto de, numa primeira versão que os Grimm abafaram, a Branca de Neve não ter sido subjugada pela madrasta, mas pela própria mãe. Já vamos a isso. Primeiro, temos de visitar uma outra bela que gostava muito de dormir.

Afinal … o Rei da Bela Adormecida já tinha uma outra Rainha.

Estamos a falar de um conto que, sem surpresas, tem várias versões entre si, mas que também foi o mais contestado pela passividade da princesa. Em primeiro temos a versão de Basil, intitulada O Sol, a Lua e Talia. O pai de Talia (nesta versão o nome da protagonista), um distinto lorde, pede a astrólogos e adivinhos para preverem o futuro da sua filha. Estes dizem-lhe que um pedaço de linho causará a morte prematura de Talia. O dia chega e todos pensam que a menina está morta. O pai, com o desgosto, coloca-a num trono de veludo, fecha as portas e abandona a casa. É então que um Rei chega, sim, tem relações com ela (uma violação) e vai-se embora. Ainda inconsciente, Talia dá à luz dois gémeos, Sol e Lua, e um dos gémeos começa a sugar fortemente nos dedos da mãe. O pedaço de fio de linho que estava preso num dos dedos de Talia sai e esta acorda. Há aqui uma outra parte da história totalmente desconhecida para nós. Afinal, havia outra e o nosso rei aproveitador era mesmo casado. Depois de regressar ao local, de ter visto os gémeos, ter explicado o que aconteceu a Talia e de lhe ter prometido que um dia a levaria para o palácio (ingenuidade), este volta para o seu reino. Como o inconsciente e os sonhos sempre nos traem (o que Freud e Jung diriam disto) num dos seus sonhos o Rei chama por Talia e pelos seus filhos. A Rainha, astuta e desconfiada, suborna o secretário do Rei, descobre a verdade, manda uma carta (fingindo que seria o seu esposo) e pede para a nossa bela lhe mandar os gémeos. O que ela queria, na verdade, era mandar cozinhar os bebés e dá-los a servir ao seu marido (verdade) mas o cozinheiro real esconde as crianças e serve, antes, sem a rainha saber, carne de cordeiro ao Rei. Eis que chega o dia em que a Rainha manda vir Talia com o intuito de a queimar viva. O rei chega a tempo de impedir a acção e queima a mulher juntamente com aqueles que o traíram, excepto o cozinheiro. Talia, o Rei e seus filhos viveram, depois, felizes.

Perrault não foi tanto ao pormenor na sua versão que, aliás, é muito mais parecida com a que conhecemos actualmente. Inclui, também, esta segunda parte de Basil mas quem tenta comer as crianças é a mãe (descendente de um ogre) do Príncipe e não a mulher. O Príncipe já não viola a princesa (nesta versão a Bela Adormecida já é filha dos monarcas), só a beija. Mas ficam a conversar, gostam muito um do outro e casam-se em segredo (nesta história não há mulher oficial). É então que têm dois filhos, Aurora e Dia, que a própria avó tenta comer. O Príncipe, no entanto, descobre tudo e a mãe acaba por cair na própria armadilha que preparou, um tubo cheio de cascavéis para matar a nora. Apesar das sessões de terapia que o galã deve ter precisado para digerir o facto de que, afinal, descendia de uma ogre que queria comer os próprios netos, viveram felizes para sempre.

A versão dos irmãos Grimm é a mais próxima da versão actual (sem dúvida) e tudo acaba com um simples e cândido beijo. Os irmãos optaram por separar as histórias. A versão da Bela Adormecida tem como título ‘Briar Rose’, o nome da princesa, mas incluíram na primeira edição da sua colectânea de contos um outro intitulado A sogra, muito semelhante e igualmente assustador.

É de notar as parecenças, neste caso, entre a primeira versão da Branca de Neve, de Basil, e a da Bela Adormecida (mesmo nas versões de Perrault e dos irmãos Grimm). Tal como a segunda princesa, Lisa é amaldiçoada por uma fada, abençoada por outras e escondida quando cai num sono que se pensa a sua morte. Mas, por este prisma, também podemos dizer que há semelhanças entre a Cinderela e a própria Branca de Neve, uma vez que ambas foram escravizadas e negligenciadas por quem deveria olhar por elas.

As mudanças das histórias nas edições dos irmãos Grimm

Segundo uma edição nova, de 2014, do primeiro e segundo volumes da colectânea organizada pelos irmãos Grimm publicados, respectivamente, em 1812 e 1815, e sob coordenação de Jack Zipes, o desejo da dupla ser honesta e fiel à tradição oral era, mesmo, verdadeira. Até porque ainda eram novos e sem experiência suficiente para terem a iniciativa de fazerem essas alterações. Por isso, quem lê essas primeiras edições originais do início do século XIX, com o título Kinder-und Hausmärchen (Contos para crianças e para o lar) fica.mesmo impressionado pela quantidade de pormenores sangrentos e pelo aspecto incompleto e incisivo das histórias. É verdade que, antigamente, não havia a tendência (de longe) de se protegerem os mais novos da brutalidade da vida. Por isso mesmo não é de espantar que a primeira colectânea da dupla alemã esteja repleta de crianças que se vêem abraços com o perigo, com o assassínio e a escravidão. Houve, no entanto, algo que os traiu: Jacob and Wilhelm Grimm não saíram pela Alemanha e Europa fora, pessoalmente, à procura desses mesmos contos orais. Apenas fizeram isso uma única vez para ouvir, directamente, da boca das mulheres do povo uma série de contos que conheciam. Para o resto, contaram com os parcos registos escritos existentes e a ajuda de académicos com a partilha das histórias que já conheciam. Eles já eram, por si só, brilhantes filólogos e escolásticos e, por isso mesmo, faziam o trabalho à secretária. Era para essa mesma classe que a colectânea se destinava, por isso mesmo aumentavam as pressões dessa mesma classe para os contos serem alterados, eliminarem-se as partes mais escabrosas como, também, havia o apelo para florear e tornar mais artístico o aspecto cru e incisivo dos contos orais — no fundo, queriam-se histórias mais refinadas e pensadas. Os escrúpulos de Wilhelm, principalmente, foram preponderantes para essa mesma cedência.Uma das primeiras alterações foram mesmo aos contos da Branca de Neve e de Hansel e Gretel já, por si, bastante sugestivos. Segundo esse mesmo livro de 2014, preparado por Jack Zipes, na primeira edição publicada pelos irmãos Grimm, afinal, não eram as madrastas as agressoras e as más da história mas, sim, as próprias mães. Essa ideia, por ser demasiado desconcertante e ir contra à ideia sacralizada da maternidade, foi alterada e posta de parte.

Após o primeiro livro seguiram-se mais 6 edições com a última a ser lançada em 1857. Desde a primeira até à última edição, foram várias as histórias que sofreram alterações, entre as quais a Rapunzel. No caso de Rapunzel, por exemplo, na primeira edição publicada trata-se de um conto curto, incisivo e provocador. A protagonista chega a engravidar do Príncipe enquanto este ainda a visita na torre. Aliás, a sua guardiã descobriu que ela estava grávida porque esta chegou-lhe a perguntar por que razão as roupas já não lhe serviam e estava a engordar. Na segunda edição da colectânea dos Grimm, lançada em 1919, tal já é omitido. A guardiã descobriu que o Príncipe subia à torre porque Rapunzel lhe perguntou porque é que o seu amado era mais leve que a sua guardiã, mais pesada. No primeiro livro aparecia, igualmente, o conto Como algumas crianças brincavam no matadouro que, nas edições posteriores foi omitido. Nesse conto, mais uma vez curto, um grupo de pequenos rapazes e raparigas, de 5 e 6 anos, brincavam aos talhantes e cozinheiros. Então, uma fazia de talhante, outra de cozinheira, outra de ajudante para ajudar a recolher o sangue para chouriças, e a última de porco. No que era suposto ser uma brincadeira inocente, a criança que fazia de porco chegou, mesmo, a ser assassinada. O menino responsável pelo assassínio é apresentado ao juiz que, sem saber muito bem o que fazer neste caso, decide dar a escolher ao rapaz uma maçã, numa mão, ou uma moeda de ouro, na outra. Se o menino escolhesse a moeda, seria preso, se escolhesse a maçã seria libertado. A criança escolheu a maçã e saiu em liberdade. Nesta história, o sentido estrito e rígido de justiça e moralidade não ganhou, no final, uma vez que a criança saiu em liberdade. É muito curioso porque, ante a brutalidade do acto, estamos perante um dilema nada fácil de resolver, daí a dificuldade do juiz se decidir: como é que funciona a relação da maldade e inocência? Como é que se enquadra um mau acto com consequências reais, realizado sem consciência? A inocência e actos maus surgem sempre em separado ou, se não houver orientação, também se cruzam?

Há, aqui, aspectos importantes. Em primeiro lugar, seriam estes contos, realmente, para crianças? Quanto muito eram histórias sobre crianças e as suas condições de vida (muitas delas aliás). Os irmãos Grimm não podiam controlar o facto de estes serem contados aos mais novos. Se repararmos com atenção, quase todas as histórias são sobre petizes mal-tratados ou que maltratam, marginalizados ou escravizados (sujeitos a canibalismo) a abandonar, só e apenas, a sua primeira infância. Isto dá-nos outra conclusão. Os contos orais dão-nos pistas sobre as sociedades que os criaram e estão sempre em mutação. Por isso começaram de forma tão bruta e, actualmente, são mais suavizados. Por isso mesmo, independentemente dos ogres, das fadas e tudo mais, há o conto da Branca de Neve e a descoberta de uma história real semelhante e, mesmo assim, não podemos dizer se foi a arte que imitou a vida ou a vida a arte. Só recentemente é que começamos a ligar estes contos à bondade sempre bondosa. Afinal, indo à sua raiz, descobrimos que há falhas de personalidade em algumas destas versões. A Cinderela matou, o seu pai foi mesmo considerado negligente na versão de Basil, a Branca de Neve (Lisa) fragilizou-se e tentou matar-se perante a sua boneca, a mãe desta fez batota com a rosa, o rei da Bela Adormecida não era tão encantado e a Rapunzel engravidou à revelia da sua tutora. O que aconteceu foi algo estrondoso, mesmo assim, a personalidade destas personagens manteve-se à tona e o que guardavam de bom não pereceu. As mudanças posteriores permitiram a actualização destes contos, o que é óptimo porque estamos a falar de uma mutação viva, mas, por um lado, acabou com o que tinham de melhor. Não, não falo do aspecto do terror apenas pelo terror em si. É porque os protagonistas, na sua passagem para a idade adulta, têm de aprender a encontrar o seu lugar no mundo (que sim, pode ser difícil mesmo sem ogres) e definirem perante isso a sua personalidade longe da protecção da infância. Isso acaba, sempre, por ser actual, daí a constante analogia com a floresta que se tem de atravessar. É como se a própria vida lhes perguntasse, “foi-te mostrado o mundo, e agora? És capaz, ante a realidade, de manter a matriz da tua personalidade e o que te faz como pessoa, na tua essência, ou vais deixar que a realidade que vês te molde? Mesmo com aspectos datados, há conceitos intemporais nestes contos : a vaidade e a influência do reflexo do espelho em ti (a relação do reflexo com a nossa persona, a nossa consciência, a forma como te vês e como os outros te vêem), a cedência à tentação e a sobrevivência a isso mesmo (como a maçã), a forma como a vida te tira do teu lugar e como regressas mais conhecedor de ti (como se atravessa a floresta). Até a representação da árvore neste contos, que acabou por ser a antecessora da fada-madrinha, representa o cuidado, a nutrição, o núcleo e formação da nossa psique, o modo como crescemos e nos moldamos. Há outro símbolo fundamental, a rosa, de uma forma ou de outra sempre presente, que representa não só fertilidade mas, também, o desabrochar, o crescimento e a passagem do tempo com a queda das suas pétalas. No fundo, no fundo, quem é que é velho de mais para as histórias? Mas, bem lá mesmo, mesmo no fundo, o que torna os contos tão divertidos é o facto de todos nós podermos contribuir com mais uma ideia, até porque quem conta um conto, acrescenta um ponto.

Todos os fossos (crónica literária)

Desde pequena que não ponho aqui os pés. Não é preciso dizer-to, não é verdade?  Nunca consegui compreender bem o porquê, mesmo que tente muito e me esforce. Ainda hoje, se pudesses mesmo falar e perguntar-mo directamente, o mais certo seria enrolar-me nas respostas sem chegar ao ponto da questão. Mas sempre que cá vinha, tinha de ser arrastada e, assim que entrava, punha-me a berrar. Era uma angústia grande, não sentia calma. Um nó na garganta, medo, muito medo, e um sufoco que nunca me abraçou em mais lado nenhum. Lá está, porquê? Estes bancos nunca me fizeram mal, assim como, propriamente, as pessoas que cá vinham, afinal de contas tão banais quanto eu. O que a mim, sinceramente, não me incomoda.  As paredes até são bonitas com as tuas pinturas e imagens que choram, as vidraças das janelas imponentes quando deixam entrar a claridade… Desisto, simplesmente não consigo. E se queres que te diga, até agora sinto o mesmo desconforto de estar aqui a falar, a falar e a falar, sempre com a velha sensação de estar a navegar ao lado do que é essencial. Desculpa-me. Nem sei bem o que me trouxe agora a tua casa. Tu sabes, mais do que ninguém, o que é difícil. Tu sabes, mais do que ninguém, quais os erros aos quais os meus pés vergam e que me trazem a arrastar pelo chão. Tu és só uma estátua, ou não? Posso imaginar que não? Posso imaginar-te? Será assim tão difícil a ideia que ouvidos de pedra e bocas mudas possam mesmo ouvir? Assim é mais fácil, posso ficar aqui horas e horas, o tempo que quiser, que não te fartas. E sabes mesmo ouvir tudo a seu tempo. A maioria dos homens não tem essa habilidade. Posso mesmo idealizar-te, pensar-te, tendo em conta aquilo que preciso neste momento. Mas não te preocupes, não vou cair nessa ilusão, a única coisa que me apetece agora é estar deitada neste banco a olhar para ti enquanto tu olhas para mim.  E ter a certeza de que, se não me entenderes ou ouvires, ao menos não te vais embora como qualquer um ou um simples conhecido (também não podias). Resta-me apenas isso. Só te queria perguntar uma coisa. O que é um equívoco? E o que é o humano além do seu equívoco? É fácil dizer que as pessoas que se enganam a elas próprias são mais felizes. É fácil e, até, bastante comezinho dar-se esse conselho. Mas acho que não é assim. Não deixa de nascer, nessa forma de engano, uma solidão que nos deixa a sós connosco próprios, com saudades da outra parte que foi. E, no fundo, mesmo que me queira enganar a mim própria, bem sei que ao beijarmos uma pessoa, não podemos beijar mais do que o seu engano. Nem é por mal, é só porque essa pessoa não se pode livrar desse engano para o dia de amanhã acontecer. É por isso que esta conversa me é difícil, percebes? E talvez seja por essa mesma razão que ando sempre, em círculos, à volta de algo sem nunca encontrar o seu centro. Afinal engano-me e sou como toda a gente, a única diferença entre mim e os outros é que eu o sinto e o sei muito bem. Essa consciência não é melhor nem pior, é só a constatação de todos os fossos e solidões em nós. Por exemplo, lembro-me muito bem da primeira vez que aqui estive, como se fosse realmente ontem. Ela estava sentada, num destes bancos, e nem fazia bem o que os outros faziam. Caía-lhe uma lágrima suave do rosto, a expressão bastante séria, compenetrada com os olhos postos em ti. Eu, pequena, olhava hipnotizada para a lágrima que caía com bastante elegância da sua face. Enquanto, envoltos em murmúrios, os restantes olhavam para os sapatos ou para o centro da sua blusa, o olhar dela saía do seu centro em busca de algo que só ela sabe, e ia bater no teu próprio olhar. Ao menos nisso era original porque como deves, mais uma vez, bem saber,  quando alguém te procura é só para te pedir que o seu próprio equívoco funcione. Mas o que é que aquela lágrima te queria e ninguém pôde compreender? Por ter caído daquela forma tão carnal, tão fora do seu equívoco, o fosso que se fazia sentir entre ela e os outros era ainda mais fundo, mais forte, como que a relembrar que a mão humana não chega, não quis, não soube ir até à lágrima, e então a lágrima teve de ir até a ti. Já eu mãe, não sei bem o que quero, só sei que queria mais do que isto. E aqui ando, nesta dança que não entendo, a tentar encontrar-me além do meu engano do qual me convenci, à espera que algo se salve e que eu, na batalha mais dura de todas, não me consiga vencer a mim própria no meu erro. É que ainda tenho de te olhar mãe, não só neste local, mas lá fora, nas pétalas de rosa que oscilam na ventania, enquanto um gato branco se deita na relva deleitado pelo sol, onde está a poesia. Eu só queria poder crescer e saber olhar-me além daquilo que penso que sou. Estou a dar os passos mas com medo que o chão se faça em estilhaços antes de o descobrir. E tu mãe? Já me descobriste além do meu equívoco e dos meus passos? Estás a ver? Afinal não sou assim tão diferente, a única diferença é que pressinto todos os fossos que existem. No fundo, o que temos de aprender, é como nos diminuir até àquela elegante lágrima, e encontrar-nos na sua mais ínfima partícula.

Então, não havemos de ter opinião, Anne? Nova edição do diário sem correcções

Texto publicado, originalmente, no site da Comunidade Cultura e Arte 🙂

Foi publicada a versão original do diário de Anne Frank, sem as correcções e alterações feitas pela própria autora, quando ponderou publicar o diário após a sua saído do anexo, e, posteriormente, pelo pai. A edição conta com as duas versões: a versão A, que diz respeito à versão original, e versão B, que diz respeito à versão editada. Além disso, vão ser também publicadas as cartas que Anne Frank escreveu à sua avó, Alice Frank.

Quando Otto Frank constata ter sido o único da sua família a sobreviver ao holocausto, a sua fiel amiga Miep Gies passa-lhe para as mãos aquele que estaria destinado a ser, seguramente, o diário mais conhecido tanto por adultos como adolescentes. Diário, esse, escrito pela sua filha — a pespineta, faladora e curiosa Annelies [Anne] Marie Frank. Não há-de, então, a gente falar? “Não há-de, então, a gente ter a sua opinião?” Dos 13 aos 15 anos, esta jovem viu as suas asas cortadas e, no auge do turbilhão da juventude que lhe tentaram roubar, ela ripostou da forma mais valiosa e curiosa possível. À desumanidade, ela respondeu com a busca incessante de si mesma, com a procura da Anne que almejava, no seu mais íntimo, ser. No fundo, retorquiu com a sua honesta e sensível adolescência. Mais curioso isto se torna, se pensarmos  que um dos documentos que mais bem espelham, interiormente, a desumanidade da perseguição à comunidade judaica adveio de alguém que, no futuro, tinha o sonho de vir a ser jornalista. Quando Otto leu o diário e percebeu que, realmente, é muito difícil para qualquer progenitor conhecer, de forma verdadeira, os seus filhos, tomou a decisão de partilhá-lo com o mundo. Claro que quando o livro foi publicado, o que nos foi dado a conhecer foi a versão parcialmente retocada pela própria autora, quando a adolescente ouviu no rádio o apelo para os judeus holandeses documentarem as suas experiências. O próprio pai também teve uma palavra a dizer na edição final, eliminado algumas passagens. Mas, agora, pela primeira vez na história, vamos ter a oportunidade de o reler tal como foi escrito originalmente, na totalidade, sem as edições posteriores. Além disso, as cartas que Annelies trocou com a sua avó Alice Frank, entre 1936 e 1941, vão também ser dadas a conhecer. Um aspecto muito importante porque, pela pela primeira vez, vamos poder ter uma perspectiva diferente do seu ambiente familiar, independente do anexo. Por isso mesmo, estes são os motes perfeitos para recordarmos o diário que mais conseguiu entrar no íntimo de cada jovem adolescente que o leu. Sim, Anne, a juventude não é para ser calma. Nunca foi, não o é, nem nunca o há-de ser. Afinal, há quem se interesse pelos devaneios de uma pespineta patusca de 13 anos.

“Não queria ser tratada como todas as raparigas, mas como um ser com personalidade própria, como a ANNE.”

“Às três horas (Harry tinha saído naquele mesmo momento e queria voltar mais tarde) tocou a campainha. Eu não tinha ouvido nada porque estava, numa preguiça agradável, estendida na cadeira de repouso, a ler. Nisto entrou a Margot, toda excitada. — Anne, recebemos uma convocação das SS para o pai — cochichou. — A mãe já foi ter com o sr. Van Daan. Senti um medo horrível. Uma convocação para o pai… Toda a gente sabe o que isso significa: campo de concentração… Vi surgir diante de mim celas solitárias para onde queriam levar o meu pai!  — Não pode ser — disse a Margot categoricamente quando nos encontramos as duas na sala de estar, á espera da mãe. — A mãe foi a casa dos Van Daans para combinar se não seria melhor mergulhar já amanhã. Os Van Daans vão connosco, somos, ao todo sete.” E foi assim, deste modo, que a vida normal de uma adolescente terminou, numa lânguida tarde de um Domingo de Julho, para se dar início à história do anexo mais conhecido da Holanda e do mundo. Na realidade, a convocatória não tinha sido para Otto, mas sim para Margot, a sua irmã mais velha. ‘Mergulhar’, tal como surge neste excerto, era a expressão que se utilizava, então, para o desaparecimento voluntário de alguém que tentasse escapar a uma perseguição de qualquer ordem. O esconderijo, que ficava nos fundos da empresa do pai de Anne, estava já a ser preparado há algum tempo. Ou seja, “mergulhar”, mais cedo ou mais tarde, já estava na mente desta família.Foi a convocatória de Margot que acabou, no entanto, por acelerar as coisas. Logo ao amanhecer do dia seguinte, os Frank lá seguiram com várias peças de roupa no corpo (o máximo que conseguiram levar) porque, logicamente, pessoas com a estrela de david no braço e  grandes malas de viagem na mão seria extremamente suspeito — era o equivalente a judeus em fuga. Anne não se esqueceu, felizmente, do diário que recebeu no seu dia de anos e, assim, pôde continuar a ter as suas conversas, em forma de carta,com ‘Kitty”, a personagem que inventou para ser a sua verdadeira confidente para as coisas que não podia partilhar com os pais ou com a irmã — na base, para ser a sua verdadeira melhor amiga. Todas as cartas começavam assim, “Querida Kitty”.

É muito difícil imaginar uma adolescente faladora, que adorava comunicar e passear com os amigos, encerrada num pequeno espaço com a preocupação constante em manter baixo o seu tom de voz para não se correrem riscos. Uma menina sensível e inteligente que começava a despertar para a curiosidade sobre a vida, sobre as coisas ao seu redor, para os rapazes (tinha os seus admiradores), e que, no geral, se sentia feliz no regresso a casa após um dia de escola, para poder abraçar o seu gato Mohrchen. Uma rapariga, também, que estava a iniciar aquele processo de autoconhecimento. Quem sou e de que forma me diferencio dos outros? Tal  foi-lhe roubado, mas ao mesmo tempo que a sua maturidade se desenvolveu de modo exponencial e demasiado cedo, ela também tinha de ser a adolescente que, efectivamente, era, com as revoltas, frustrações, indignações, paixões e fantasias de uma rapariga com uma vida normalizada. Essa conjunção em efervescência tinha de resvalar para algum lado, como de facto. A sua adolescência tinha de encontrar um porto seguro, daí a importância gigantesca deste diário para Anne Frank, que a auxiliou na asfixia constante que sentia. Ironicamente, em parte podemos dizer que, de forma muito natural, foi o próprio espírito adolescente que acabou por lhe servir de fiel aliado. É neste preciso ponto que podemos encarar a leitura do livro através de duas vias: há o contexto histórico e o contexto pessoal (este último é o que encontra reflexo em grande parte dos adolescentes). E claro, há que frisar que é esse mesmo lado que permite que jovens contemporâneos (mesmo com os seus telemóveis e dependências tecnológicas) encontrem pontos em comum com alguém que poderia ser sua avó ou, até, bisavó. É como se Anne Frank nos estivesse a dizer ali, naquele preciso momento em que a lemos, que só uma genuína intimidade é capaz de resgatar e puxar por outra intimidade, ou seja, uma troca honesta que ao mesmo tempo é dependendente mas, de forma activa, espoleta e incentiva a outra. Isto levanta outra questão interessante, é essa mesma tentativa de honestidade para connosco próprios que acaba por se sobrepor e vencer as prisões, limitações e castrações de uma determinada época. Pode parecer um bonito cliché, aceito, mas é como se quanto mais despido algo for, mais possibilidades tem de encontrar verossimilhanças nos outros — mais se abre, também, a outras épocas.

O que mais chateava Anne, era aquela sensação de não ser levada a sério. Era a mais nova, numa situação extremamente difícil, em que a constante ansiedade dos adultos pela possibilidade de serem descobertos a qualquer minuto crescia a cada dia passado. Eram os constantes ralhetes que, numa situação de adolescência típica, até poderiam ser normais, mas ali, naquele espaço, sem a possibilidade de respirar outro ambiente, tomavam uma outra amplitude no seu entendimento e forma de sentir.  E Anne, claro, estava a crescer, era algo que não poderia ser travado. Há uma altura em que, face às acusações de ser malcriada, respondona e intrometida chega mesmo a perguntar-se, “não há-de, então, a gente ter a sua opinião?” Aquele anexo era pequeno mas, nem por isso, deixou de haver espaço para a história mais antiga deste mundo: a juventude em conflito com as gerações anteriores, com a opinião de que não são levadas a sério, muito menos compreendidas ou conhecidas a fundo.

O tema da juventude, em si, interessava a Anne, principalmente pelo sentimento de asas cortadas, sonhos traídos e cortados logo à nascença. Mais não seja, pela percepção de que a sua, parecia ser uma geração perdida sem futuro à vista. Sente este facto com profundidade porque, não o podemos, de maneira nenhuma negar, esse sentimento era mais do que o justificado. “‘Pois, no fundo, a juventude é mais solitária do que a velhice’. Encontrei esta frase num livro e fixei-a, porque encontrei nela a verdade. É a nossa vida aqui mais difícil de suportar para os adultos do que para nós? Não, decerto não! As pessoas com mais idade já têm opiniões formadas sobre todas as coisas e não vacilam, não hesitam perante as dificuldades da sua vida. A nós, os jovens, custa-nos manter-nos firmes nos nossos pareceres por vivermos numa época em que se destroem todos os ideais, em que a humanidade se mostra pelo seu lado mais horroroso, em que se duvida da verdade, do direito, de Deus! Aquele que pretende afirmar que os mais velhos sofrem mais aqui no anexo do que nós, jovens, não sabe ver até que ponto os problemas desabam sobre nós, problemas para os quais talvez ainda não tenhamos bastante idade, mas que se nos impõem de um modo violento. Em determinada altura, julgamos ter encontrado uma solução mas esta solução, de uma maneira geral, não resiste aos factos que são sempre tão diferentes. Eis  dificuldade do nosso tempo: mal começam a germinar em nós ideais, sonhos, belas esperanças, logo a realidade cruel se apodera de tudo isso para o destruir totalmente.”

Eram oito pessoas a dividirem o mesmo espaço ininterruptamente. Os Franks (a Anne, a Margot e os pais), os Van Daans (o jovem Peter e os pais, de nome verdadeiro Van Pels), a quem se juntou mais tarde o dentista Albert Dussel [nome verdadeiro Fritz Pfeffer] com quem  autora do diário partilhava o seu quarto — o que originou vários conflitos de disputa. Eram protegidos e mantidos pelos empregados da empresa de Otto, que mantinham, dessa forma, uma espécie de sociedade secreta para não correrem riscos. A fundamental Miep Gies fazia parte desse grupo. O pior chegou mesmo a acontecer, já quando o Dia D havia ocorrido. Dois dias depois da última carta dirigida a Kitty, a quatro de Agosto de 1944, a “Grüne Polizei” tomou de assalto o anexo e todos os que nele habitavam foram enviados para campos de concentração.  Ninguém sobreviveu a não ser Otto Frank.

A melhor resposta de Anne, foi mesmo ter continuado a busca para se conhecer ela própria, mesmo em tempos de provações pelas quais ninguém devia passar, e ser honesta perante isso. No feixe de contradições que ela dizia ser — porque todos lhe cobravam a impertinência, o facto de gostar de falar, de dar a opinião, do flirt — ela falou, ela importunou, ela namorou. No anexo, além do namorado anterior Peter Wessel, aproximou-se também do filho dos Van Daan. Apesar das acusações que lhe faziam, o que lhe originava imensa confusão e dúvidas sobre ela própria, sentia a  necessidade de mostrar que não era aquilo que os “adultos” pensavam e que, afinal, havia uma outra Anne mais complexa e profunda à espera de ser conhecida. Uma outra Anne que queria lutar e mostrar-se para além do futuro que o nazismo lhe roubou. “Quando estou calada e séria, todos pensam que estou a representar uma nova comédia. Para me salvar só me resta dizer uma piadinha. Pior ainda quando se trata da minha família que imagina logo que estou doente e me impinge pastilhas contra as dores de cabeça , que me toma o pulso a ver se tenho febre, que pergunta como funciona o aparelho digestivo para, em seguida, censurar o meu mau génio. Não suporto semelhante coisa. Quando me tratam desta maneira, torno-me ainda mais impertinente, fico triste, e, por fim, viro o meu coração do avesso — o lado mau para fora, o bom para dentro — e continuo a procurar um meio para vir a ser aquela que gostava de ser,que era capaz de ser, se … sim, se não houvesse mais ninguém no mundo. (…) Já te contei em tempos que não tenho uma alma, mas sim duas. Uma dá-me a minha alegria exuberante, as minhas zombarias a propósito de tudo, a minha vontade de viver e a minha tendência para deixar correr, isto é, para não me escandalizar com flirts, abraços ou piadas inconvenientes. Esta primeira alma está sempre à espreita e faz tudo para suplantar a outra que é mais bela, pura, mais profunda. Esta alma boa ninguém a conhece, não é verdade?E é por isso que tão pouca gente gosta de mim.”

Anne Frank morre após ter sido transferida de Aushwitz para Bergen-Belsen, apenas dois meses antes da libertação da Holanda. O diário, que tencionava publicar posteriormente sob o título O Anexo Secreto  não foi a única coisa que escreveu.  Da sua autoria, ainda podemos contar com 34 contos e um romance que não conseguiu finalizar, Cady’s Life. Quando Miep e Otto, à volta da correspondência da empresa, descobrem a carta que confirma a morte de Anne e Margot, esta abre uma gaveta da sua secretária e diz “toma, aqui está o legado da tua filha.” Quando Otto acabou de ler o diário constatou para si, “não conhecia a minha própria filha.” Assim como a maioria dos pais.

Conjunto!Evite: “O que é mesmo um Disco? É um LP? É um streaming? É um link?”

Do mesmo modo que Primo Levi se questionou ‘Se isto é um homem’, assim os Conjunto!Evite se inquirem ‘Se isto é um disco’ com o seu novo álbum. E o que é, de facto? A verdade é que as mudanças em torno do panorama musical têm contribuído para a abertura do leque de respostas. Tal como os próprios Conjunto!Evite relembram, “Hoje em dia o que é mesmo um Disco? É um LP? É um cd? É um streaming? É um link para download? O conceito de disco já não é o que era e por isso decidimos pegar nesse paradoxo e moldá-lo à nossa maneira.” O resultado surgiu no dia 3 de Junho com um conjunto de 8 de temas de puro prog rock, entre os quais o curioso ‘Controla a paranóia’, numa referência à série de ficção científica Hitchhiker’s Guide to the Galaxy, de Douglas Adams. “All through my life I’ve had this strange unaccountable feeling that something was going on in the world, something big, even sinister, and no one would tell me what it was.” “No,” said the old man, “that’s just perfectly normal paranoia. Everyone in the Universe has that.” A extrapolar o universo musical e porque, realmente, as coisas se encontram ligadas, o audiovisual também surge destacado com o stop motion de ‘Controla a Paranóia’ e a animação, que faz lembrar um videojogo, de ‘O Lead é que Decide’. A música é feita de imagens e vice-versa e foi sobre isso mesmo e muito mais que, na entrevista que se segue, conversei com a banda. É ler. “Se os melhores livros nos agarram na primeira linha, pode um primeiro riff ter o mesmo impacto?” Claro que sim.

Há uma concepção visual muito interessante nos videoclips que já apresentaram. Temos o stop motion de Controla a Paranóia e a animação, que faz lembrar um videojogo, de O Lead é que Decide. Faz sentido, para vós, levar a música para esse lado visual? É outra forma de comunicação complementar? Ou seja, pode-se pensar a música através de imagem?

Faz sentido porque a nossa música já evoca por si muitas imagens e, ao darmos corpo a essas imagens, estamos a complementar a música e a ajudar a estabelecer relações com quem nos ouve. No princípio, tentamos que os vídeos mostrassem a nossa energia a tocar ao vivo mas percebemos que a isso faltava algo extra como o stop motion da Controla a Paranóia. Nesse caso em específico, o stop motion acrescentou valor à música, acrescentou uma narrativa a um tema instrumental e casou muito bem.

O Lead é que Decide tem letra e voz mas Conjunto!Evite, no cômputo geral, está mais associado ao instrumental. Quais são os desafios principais para vós no que diz respeito à construção de uma letra e a seguinte vocalização?

No início, sim, começou por ser uma banda instrumental, mas assim que se fez a Fabiana e o Sebastião escreveu a letra e cantou ficamos convencidos de que um pouco de voz aqui e ali ficava muito bem. Passado uns tempos, juntámos a voz do Vicente para realçar certas partes e para atingir registos um pouco mais graves. O desafio começa por saber onde encaixar voz na música ou se precisa sequer de voz. De seguida, são as melodias, depois, as letras podem demorar um pouco mais a surgir mas, quando isso fica pronto, o verdadeiro desafio é conseguir cantar e tocar ao mesmo tempo visto que os nossos vocalistas são também instrumentistas. Mas com o rodar das músicas as coisas foram ao sítio 🙂

O riff de uma guitarra consegue dizer tanto como um conjunto palavras?

Um riff consegue dizer outras coisas , que as palavras não conseguem. Um riff faz-nos sentir coisas sem precisa compreensão, a emoção é a linguagem do rif. As palavras têm acesso direto à nossa compreensão, as palavras têm imagens associadas a elas que de certa forma enquadram as emoções sugeridas pelos riffs.

Porque é que neste disco vocês pegam no conceito Paranóia? O que tentam passar com esse tema?

Na verdade, não foi nossa intenção pegar no conceito por si só. “Controla a Paranóia” surgiu quando estávamos a fechar os nomes das músicas, já tínhamos concluído o vídeo e achámos que era um nome que o representa bem pela sua narrativa. Se tentamos passar algo do tema será uma referência ao Hitchhiker’s Guide to the Galaxy do Douglas Adams – “All through my life I’ve had this strange unaccountable feeling that something was going on in the world, something big, even sinister, and no one would tell me what it was.” “No,” said the old man, “that’s just perfectly normal paranoia. Everyone in the Universe has that.”

O nome do álbum é curioso, Se Isto é um Disco. Pode ter duas interpretações possíveis: ou há mais elementos nele que extrapolam o conceito normal de disco, ou pode ser uma brincadeira, sátira com o dedo apontado a vós próprios. Podeis falar, um pouco, sobre o título? O porquê?

O nome do disco surge de um trocadilho com o título do livro escrito por Primo Levi, Se isto é um Homem, e de um debate: Hoje em dia o que é mesmo um Disco? É um LP? É um cd? É um streaming? É um link para download? O conceito de disco já não é o que era e por isso decidimos pegar nesse paradoxo e moldá-lo à nossa maneira. A própria palavra Disco pode levar a várias interpretações, o que nos agrada porque a nossa música é também isso, uma quadro sonoro aberto a interpretações.

Como é fazer parte da colectânea Novos Talentos FNAC?

É um orgulho enorme! Ver o nosso trabalho incluído numa colectânea que já deu a conhecer tantas boas bandas é sem dúvida especial e um bom motivador para continuar a fazer a música que nos melhor representa.

Relembrem o início e como tudo começou.

Começou e continua a ser um desafio. O Fábio, o Sebastião e o Zé já tocavam juntos noutro projeto de versões maioritariamente dos anos 60/70 e, em 2010, surgiu a oportunidade de nos apresentarmos num formato só com músicas da nossa autoria. Na altura, estávamos a trabalhar em 4 músicas pensadas para serem cantadas mas a disponibilidade da vocalista desse projeto era limitada logo, o Fábio sugeriu lançarmos-nos à aventura só com os instrumentais. Eventualmente, 3 dessas músicas e outra que compusemos mais tarde tornaram-se no nosso primeiro disco, Conjunto!Evite, que lançámos em 2014.

Conjunto!Evite é rock progressivo mas, no entanto, não deixam que isso seja um rótulo? Procuram, também, mais?

Sim, procuramos fazer boa música, música que gostamos, independente de estilos e que nos desafie acima de tudo. Há aquele clássico exemplo de bandas como AC/DC – que adoramos – de rock straight forward sem grandes desvios ao longo dos anos e dos discos mas a nossa cena é explorar em cada disco ambientes novos e fazer deles nossos.

Thiago Hoover “é nossa missão dar o recado, retratar o que vemos e transformar em história”

Já havíamos falado dos Mamelungos, é verdade, a banda que junta os recifenses Thiago Hoover, Luccas Maia, Peu Lima e Weré Lima. Agora é a vez de conhecermos o trabalho a solo de Thiago Hoover com o fuzz do álbum Aurora Boreal. As relações, as frustrações e os desgostos de amor são o grande centro do disco. Não deixa de estar latente, no entanto, uma crítica ao estado actual do Brasil. “Aqui vai tudo mal, quem é que vai dizer amén” pode-se ouvir, por exemplo, no último tema de Aurora Boreal, Xau Querida. Mas, como o próprio relembrou na entrevista que se segue, se “nem só de amor viverá o homem”, também é verdade que “nem só de fuzz viverá o roqueiro”. Por isso, o leque musical do recente trabalho de Thiago abre-se para o spoken word característico do rap , numa parceria com AMANAJÉ SOUND SYSTEM; beats electrónicos e o jazz.  Sem esquecer, claro, o respeito pela singularidade e acalmia da guitarra acústica.  Vamos agora ao que interessa, as respostas do Thiago.


Pelo que percebi, este projecto, no início, era para ser um ep. Qual foi o momento em que percebeste que poderia ser mais, um álbum?

Esse processo, de fato, é bem antigo e se reciclou com o tempo.

Escolhi primeiro 4 ( Aurora Boreal – Pra mais ninguém – Foi Triste e Fuzz on ). Gravei, mixei, praticamente finalizei e, paralelamente, travei na questão da arte visual. No tempo que foi demorando pra acharmos a capa certa eu continuei gravando (Comigo na Pior – Tudo o que eu fiz – Querer ou não)  e nada da capa sair. Já estávamos no sexto tipo de capa e ainda não me sentia à vontade com a representação que eu queria passar… sabe? A Gente vê, Babyboom e Xau Querida foram as últimas músicas a serem inseridas e, finalmente, eu fiz uma sessão de fotos com a Bárbara Cunha. Recifense fotógrafa, cinegrafista e diretora de cinema que a minha vida mudou ― tudo se encaixou e, finalmente, eu pude juntar esse meu baú dos tesouros de Aurora Boreal.

“Aqui vai tudo mal, quem é que vai dizer amén”, surge no último tema do álbum, numa clara alusão à realidade política e social do Brasil actual. Esta é a grande temática que tem gerado grandes divisões.Conta como é que se tem vivido essa asfixia. O medo de falar livremente é real?

Acho que não existe medo de falar, todos os artistas brasileiros se posicionaram muito bem contra todo esse processo que estamos passando pelo atual governo. Faz parte da nossa missão dar o recado, retratar o que está sendo visto e transformar em história, “nem só de amor viverá o homem”. rs.

Nesse tema, muito curiosamente, surge um entrecruzamento com a spoken word (Reggae/rap) dos Amanajé Sound System. Porquê? Por também ser um estilo ligado à contestação?

Minha relação com o Amanajé começou num show do Mamelungos em São Paulo, numa casa que não existe mais, na Vila Madalena, chamada Zé Presidente. O Gaúcho, engenheiro de som e produtor musical do Amanajés operava nessa casa, a gente pirou no trabalho que ele fez conosco aquela noite e ele pirou na banda. Ficámos amigos e ele me chamou pra colocar guitarra e programações em umas músicas deles. Eu participei de “Retrato de Maria” e “Trajetória” tocando guitarra, synth e programando beats. A composição de Xau Querida (democracia) é inicialmente minha e de Paulo Veríssimo de Brasília, cantor, guitarrista e compositor da banda Distintos Filhos. Estávamos em Brasília fazendo uma temporada juntos Distintos + Hoover no teatro Sesi de Taguatinga e a gente se cobrou de compor juntos… O momento era exatamento o do impitman da Dilma e a música escorreu rapidamente quando nos juntamos. Após Riff, A, B e Refrão prontos, sentimos a falta de um (especial), uma parte diferente que não se repete na música. Eu lembrei do Amanajés na hora, comentei pro Paulo e ele adorou a idéia, mandei a música pros caras e eles também adoraram a idéia da música como um todo… Quando eles mandaram as tracks pra gente colocar na música eu fiquei emocionado! Eles captaram e ampliaram a expansão da música pra lugares que a ótica minha e do Paulo não iriam. Pra mim a riqueza da música ta aí, sabe? Da diversidade e amplitude.

A banda Mamelungos representa toda uma simbiose e miríade de estilos musicais, em representação da riqueza e variedade que caracteriza o Brasil. Pressente-se, em alguns temas, analogias ao folk/country, mas não se pauta pelo stoner/rock agressivo. Isso é o que caracteriza mais o teu estilo pessoal? O que quero perguntar é se vieste mesmo do rock, se, declaradamente, é a tua praia e foi aí que tudo começou para ti.

Noooossaaaaa… Essa sua colocação foi demais e eu me sinto muito honrado de ler isso, principalmente de fora do Brasil. =))))))) Sim, eu sou roqueiro, sempre fui! Toco alto, Weré sempre ficou louco com o volume da guitarra. Quando tinha o Igor Bruno que tocava violão de nylon também era a mesma coisa, e eu amo música brasileira, trago ela comigo no meu sotaque, nas minhas histórias, mas a minha alma é rock e eu tô muito feliz de ter aceitado isso, depois que eu voltei para minhas origens eu me sinto mais verdadeiro em chamar esse projeto de (Thiago Hoover) sabe? Ao mesmo tempo eu não gosto de me repetir nem segmentar, pretendo continuar indo por caminhos diferentes, sempre. Crescer e amadurecer.

O álbum tem como grande temática a frustração e o desgosto amoroso (embora em A caminho do sol haja a grande inversão dessa ideia). São temáticas que têm tanto de pesado como de delicado e sensível. Sentiste que, por isso mesmo, as aberturas com o violão foram essenciais?

Sim, com certeza, eu considero o violão como um dos instrumentos mais poderosos de todos os tempos. Ele abre mares, para tempestades e acalma os corações aflitos. É a nossa sítara, a ponte ou antena pra música sair do plano etéreo pra nossas cabeças.(Mas também não se fecha aí, há o jazz de Pra mais ninguem e, também, alguns elementos de electrónica de Babyboom.)

Como foi a experiência da produção e concepção deste álbum, agora em nome próprio?

Filho de mãe poetisa e de pai baterista eu passei a me interessar por música e poesia muito cedo. Aos 12 ja fazia minhas canções e as defendia em festivais estudantis, toquei todos os instrumentos que estavão acessiveis na época, bateria, violão, baixo, guitarra, pq cantar era muito orgânico… Trabalhei como guitarrista em diversas bandas e por ter noção de todos os instrumentos eu sempre dava pitaco no que os outros iriam fazer (depois entendi que isso é produção musical). Musicas como “Pra mais ninguém ou A Caminho do sol estão comigo há mais de 10 anos eeu sempre tive vontade de ser um artista solo, por sempre compor e ter essa necessidade de mostrar pras pessoas e de sentir o feedback que normalmente é positivo ao se identificar com alguma das histórias. São histórias reais, vividas, às vezes mudando os personagens de lugar, trocando os sexos, mas sempre dando ênfase ao relacionamento humano.