Todos os fossos (crónica literária)

Desde pequena que não ponho aqui os pés. Não é preciso dizer-to, não é verdade?  Nunca consegui compreender bem o porquê, mesmo que tente muito e me esforce. Ainda hoje, se pudesses mesmo falar e perguntar-mo directamente, o mais certo seria enrolar-me nas respostas sem chegar ao ponto da questão. Mas sempre que cá vinha, tinha de ser arrastada e, assim que entrava, punha-me a berrar. Era uma angústia grande, não sentia calma. Um nó na garganta, medo, muito medo, e um sufoco que nunca me abraçou em mais lado nenhum. Lá está, porquê? Estes bancos nunca me fizeram mal, assim como, propriamente, as pessoas que cá vinham, afinal de contas tão banais quanto eu. O que a mim, sinceramente, não me incomoda.  As paredes até são bonitas com as tuas pinturas e imagens que choram, as vidraças das janelas imponentes quando deixam entrar a claridade… Desisto, simplesmente não consigo. E se queres que te diga, até agora sinto o mesmo desconforto de estar aqui a falar, a falar e a falar, sempre com a velha sensação de estar a navegar ao lado do que é essencial. Desculpa-me. Nem sei bem o que me trouxe agora a tua casa. Tu sabes, mais do que ninguém, o que é difícil. Tu sabes, mais do que ninguém, quais os erros aos quais os meus pés vergam e que me trazem a arrastar pelo chão. Tu és só uma estátua, ou não? Posso imaginar que não? Posso imaginar-te? Será assim tão difícil a ideia que ouvidos de pedra e bocas mudas possam mesmo ouvir? Assim é mais fácil, posso ficar aqui horas e horas, o tempo que quiser, que não te fartas. E sabes mesmo ouvir tudo a seu tempo. A maioria dos homens não tem essa habilidade. Posso mesmo idealizar-te, pensar-te, tendo em conta aquilo que preciso neste momento. Mas não te preocupes, não vou cair nessa ilusão, a única coisa que me apetece agora é estar deitada neste banco a olhar para ti enquanto tu olhas para mim.  E ter a certeza de que, se não me entenderes ou ouvires, ao menos não te vais embora como qualquer um ou um simples conhecido (também não podias). Resta-me apenas isso. Só te queria perguntar uma coisa. O que é um equívoco? E o que é o humano além do seu equívoco? É fácil dizer que as pessoas que se enganam a elas próprias são mais felizes. É fácil e, até, bastante comezinho dar-se esse conselho. Mas acho que não é assim. Não deixa de nascer, nessa forma de engano, uma solidão que nos deixa a sós connosco próprios, com saudades da outra parte que foi. E, no fundo, mesmo que me queira enganar a mim própria, bem sei que ao beijarmos uma pessoa, não podemos beijar mais do que o seu engano. Nem é por mal, é só porque essa pessoa não se pode livrar desse engano para o dia de amanhã acontecer. É por isso que esta conversa me é difícil, percebes? E talvez seja por essa mesma razão que ando sempre, em círculos, à volta de algo sem nunca encontrar o seu centro. Afinal engano-me e sou como toda a gente, a única diferença entre mim e os outros é que eu o sinto e o sei muito bem. Essa consciência não é melhor nem pior, é só a constatação de todos os fossos e solidões em nós. Por exemplo, lembro-me muito bem da primeira vez que aqui estive, como se fosse realmente ontem. Ela estava sentada, num destes bancos, e nem fazia bem o que os outros faziam. Caía-lhe uma lágrima suave do rosto, a expressão bastante séria, compenetrada com os olhos postos em ti. Eu, pequena, olhava hipnotizada para a lágrima que caía com bastante elegância da sua face. Enquanto, envoltos em murmúrios, os restantes olhavam para os sapatos ou para o centro da sua blusa, o olhar dela saía do seu centro em busca de algo que só ela sabe, e ia bater no teu próprio olhar. Ao menos nisso era original porque como deves, mais uma vez, bem saber,  quando alguém te procura é só para te pedir que o seu próprio equívoco funcione. Mas o que é que aquela lágrima te queria e ninguém pôde compreender? Por ter caído daquela forma tão carnal, tão fora do seu equívoco, o fosso que se fazia sentir entre ela e os outros era ainda mais fundo, mais forte, como que a relembrar que a mão humana não chega, não quis, não soube ir até à lágrima, e então a lágrima teve de ir até a ti. Já eu mãe, não sei bem o que quero, só sei que queria mais do que isto. E aqui ando, nesta dança que não entendo, a tentar encontrar-me além do meu engano do qual me convenci, à espera que algo se salve e que eu, na batalha mais dura de todas, não me consiga vencer a mim própria no meu erro. É que ainda tenho de te olhar mãe, não só neste local, mas lá fora, nas pétalas de rosa que oscilam na ventania, enquanto um gato branco se deita na relva deleitado pelo sol, onde está a poesia. Eu só queria poder crescer e saber olhar-me além daquilo que penso que sou. Estou a dar os passos mas com medo que o chão se faça em estilhaços antes de o descobrir. E tu mãe? Já me descobriste além do meu equívoco e dos meus passos? Estás a ver? Afinal não sou assim tão diferente, a única diferença é que pressinto todos os fossos que existem. No fundo, o que temos de aprender, é como nos diminuir até àquela elegante lágrima, e encontrar-nos na sua mais ínfima partícula.

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Então, não havemos de ter opinião, Anne? Nova edição do diário sem correcções

Texto publicado, originalmente, no site da Comunidade Cultura e Arte 🙂

Foi publicada a versão original do diário de Anne Frank, sem as correcções e alterações feitas pela própria autora, quando ponderou publicar o diário após a sua saído do anexo, e, posteriormente, pelo pai. A edição conta com as duas versões: a versão A, que diz respeito à versão original, e versão B, que diz respeito à versão editada. Além disso, vão ser também publicadas as cartas que Anne Frank escreveu à sua avó, Alice Frank.

Quando Otto Frank constata ter sido o único da sua família a sobreviver ao holocausto, a sua fiel amiga Miep Gies passa-lhe para as mãos aquele que estaria destinado a ser, seguramente, o diário mais conhecido tanto por adultos como adolescentes. Diário, esse, escrito pela sua filha — a pespineta, faladora e curiosa Annelies [Anne] Marie Frank. Não há-de, então, a gente falar? “Não há-de, então, a gente ter a sua opinião?” Dos 13 aos 15 anos, esta jovem viu as suas asas cortadas e, no auge do turbilhão da juventude que lhe tentaram roubar, ela ripostou da forma mais valiosa e curiosa possível. À desumanidade, ela respondeu com a busca incessante de si mesma, com a procura da Anne que almejava, no seu mais íntimo, ser. No fundo, retorquiu com a sua honesta e sensível adolescência. Mais curioso isto se torna, se pensarmos  que um dos documentos que mais bem espelham, interiormente, a desumanidade da perseguição à comunidade judaica adveio de alguém que, no futuro, tinha o sonho de vir a ser jornalista. Quando Otto leu o diário e percebeu que, realmente, é muito difícil para qualquer progenitor conhecer, de forma verdadeira, os seus filhos, tomou a decisão de partilhá-lo com o mundo. Claro que quando o livro foi publicado, o que nos foi dado a conhecer foi a versão parcialmente retocada pela própria autora, quando a adolescente ouviu no rádio o apelo para os judeus holandeses documentarem as suas experiências. O próprio pai também teve uma palavra a dizer na edição final, eliminado algumas passagens. Mas, agora, pela primeira vez na história, vamos ter a oportunidade de o reler tal como foi escrito originalmente, na totalidade, sem as edições posteriores. Além disso, as cartas que Annelies trocou com a sua avó Alice Frank, entre 1936 e 1941, vão também ser dadas a conhecer. Um aspecto muito importante porque, pela pela primeira vez, vamos poder ter uma perspectiva diferente do seu ambiente familiar, independente do anexo. Por isso mesmo, estes são os motes perfeitos para recordarmos o diário que mais conseguiu entrar no íntimo de cada jovem adolescente que o leu. Sim, Anne, a juventude não é para ser calma. Nunca foi, não o é, nem nunca o há-de ser. Afinal, há quem se interesse pelos devaneios de uma pespineta patusca de 13 anos.

“Não queria ser tratada como todas as raparigas, mas como um ser com personalidade própria, como a ANNE.”

“Às três horas (Harry tinha saído naquele mesmo momento e queria voltar mais tarde) tocou a campainha. Eu não tinha ouvido nada porque estava, numa preguiça agradável, estendida na cadeira de repouso, a ler. Nisto entrou a Margot, toda excitada. — Anne, recebemos uma convocação das SS para o pai — cochichou. — A mãe já foi ter com o sr. Van Daan. Senti um medo horrível. Uma convocação para o pai… Toda a gente sabe o que isso significa: campo de concentração… Vi surgir diante de mim celas solitárias para onde queriam levar o meu pai!  — Não pode ser — disse a Margot categoricamente quando nos encontramos as duas na sala de estar, á espera da mãe. — A mãe foi a casa dos Van Daans para combinar se não seria melhor mergulhar já amanhã. Os Van Daans vão connosco, somos, ao todo sete.” E foi assim, deste modo, que a vida normal de uma adolescente terminou, numa lânguida tarde de um Domingo de Julho, para se dar início à história do anexo mais conhecido da Holanda e do mundo. Na realidade, a convocatória não tinha sido para Otto, mas sim para Margot, a sua irmã mais velha. ‘Mergulhar’, tal como surge neste excerto, era a expressão que se utilizava, então, para o desaparecimento voluntário de alguém que tentasse escapar a uma perseguição de qualquer ordem. O esconderijo, que ficava nos fundos da empresa do pai de Anne, estava já a ser preparado há algum tempo. Ou seja, “mergulhar”, mais cedo ou mais tarde, já estava na mente desta família.Foi a convocatória de Margot que acabou, no entanto, por acelerar as coisas. Logo ao amanhecer do dia seguinte, os Frank lá seguiram com várias peças de roupa no corpo (o máximo que conseguiram levar) porque, logicamente, pessoas com a estrela de david no braço e  grandes malas de viagem na mão seria extremamente suspeito — era o equivalente a judeus em fuga. Anne não se esqueceu, felizmente, do diário que recebeu no seu dia de anos e, assim, pôde continuar a ter as suas conversas, em forma de carta,com ‘Kitty”, a personagem que inventou para ser a sua verdadeira confidente para as coisas que não podia partilhar com os pais ou com a irmã — na base, para ser a sua verdadeira melhor amiga. Todas as cartas começavam assim, “Querida Kitty”.

É muito difícil imaginar uma adolescente faladora, que adorava comunicar e passear com os amigos, encerrada num pequeno espaço com a preocupação constante em manter baixo o seu tom de voz para não se correrem riscos. Uma menina sensível e inteligente que começava a despertar para a curiosidade sobre a vida, sobre as coisas ao seu redor, para os rapazes (tinha os seus admiradores), e que, no geral, se sentia feliz no regresso a casa após um dia de escola, para poder abraçar o seu gato Mohrchen. Uma rapariga, também, que estava a iniciar aquele processo de autoconhecimento. Quem sou e de que forma me diferencio dos outros? Tal  foi-lhe roubado, mas ao mesmo tempo que a sua maturidade se desenvolveu de modo exponencial e demasiado cedo, ela também tinha de ser a adolescente que, efectivamente, era, com as revoltas, frustrações, indignações, paixões e fantasias de uma rapariga com uma vida normalizada. Essa conjunção em efervescência tinha de resvalar para algum lado, como de facto. A sua adolescência tinha de encontrar um porto seguro, daí a importância gigantesca deste diário para Anne Frank, que a auxiliou na asfixia constante que sentia. Ironicamente, em parte podemos dizer que, de forma muito natural, foi o próprio espírito adolescente que acabou por lhe servir de fiel aliado. É neste preciso ponto que podemos encarar a leitura do livro através de duas vias: há o contexto histórico e o contexto pessoal (este último é o que encontra reflexo em grande parte dos adolescentes). E claro, há que frisar que é esse mesmo lado que permite que jovens contemporâneos (mesmo com os seus telemóveis e dependências tecnológicas) encontrem pontos em comum com alguém que poderia ser sua avó ou, até, bisavó. É como se Anne Frank nos estivesse a dizer ali, naquele preciso momento em que a lemos, que só uma genuína intimidade é capaz de resgatar e puxar por outra intimidade, ou seja, uma troca honesta que ao mesmo tempo é dependendente mas, de forma activa, espoleta e incentiva a outra. Isto levanta outra questão interessante, é essa mesma tentativa de honestidade para connosco próprios que acaba por se sobrepor e vencer as prisões, limitações e castrações de uma determinada época. Pode parecer um bonito cliché, aceito, mas é como se quanto mais despido algo for, mais possibilidades tem de encontrar verossimilhanças nos outros — mais se abre, também, a outras épocas.

O que mais chateava Anne, era aquela sensação de não ser levada a sério. Era a mais nova, numa situação extremamente difícil, em que a constante ansiedade dos adultos pela possibilidade de serem descobertos a qualquer minuto crescia a cada dia passado. Eram os constantes ralhetes que, numa situação de adolescência típica, até poderiam ser normais, mas ali, naquele espaço, sem a possibilidade de respirar outro ambiente, tomavam uma outra amplitude no seu entendimento e forma de sentir.  E Anne, claro, estava a crescer, era algo que não poderia ser travado. Há uma altura em que, face às acusações de ser malcriada, respondona e intrometida chega mesmo a perguntar-se, “não há-de, então, a gente ter a sua opinião?” Aquele anexo era pequeno mas, nem por isso, deixou de haver espaço para a história mais antiga deste mundo: a juventude em conflito com as gerações anteriores, com a opinião de que não são levadas a sério, muito menos compreendidas ou conhecidas a fundo.

O tema da juventude, em si, interessava a Anne, principalmente pelo sentimento de asas cortadas, sonhos traídos e cortados logo à nascença. Mais não seja, pela percepção de que a sua, parecia ser uma geração perdida sem futuro à vista. Sente este facto com profundidade porque, não o podemos, de maneira nenhuma negar, esse sentimento era mais do que o justificado. “‘Pois, no fundo, a juventude é mais solitária do que a velhice’. Encontrei esta frase num livro e fixei-a, porque encontrei nela a verdade. É a nossa vida aqui mais difícil de suportar para os adultos do que para nós? Não, decerto não! As pessoas com mais idade já têm opiniões formadas sobre todas as coisas e não vacilam, não hesitam perante as dificuldades da sua vida. A nós, os jovens, custa-nos manter-nos firmes nos nossos pareceres por vivermos numa época em que se destroem todos os ideais, em que a humanidade se mostra pelo seu lado mais horroroso, em que se duvida da verdade, do direito, de Deus! Aquele que pretende afirmar que os mais velhos sofrem mais aqui no anexo do que nós, jovens, não sabe ver até que ponto os problemas desabam sobre nós, problemas para os quais talvez ainda não tenhamos bastante idade, mas que se nos impõem de um modo violento. Em determinada altura, julgamos ter encontrado uma solução mas esta solução, de uma maneira geral, não resiste aos factos que são sempre tão diferentes. Eis  dificuldade do nosso tempo: mal começam a germinar em nós ideais, sonhos, belas esperanças, logo a realidade cruel se apodera de tudo isso para o destruir totalmente.”

Eram oito pessoas a dividirem o mesmo espaço ininterruptamente. Os Franks (a Anne, a Margot e os pais), os Van Daans (o jovem Peter e os pais, de nome verdadeiro Van Pels), a quem se juntou mais tarde o dentista Albert Dussel [nome verdadeiro Fritz Pfeffer] com quem  autora do diário partilhava o seu quarto — o que originou vários conflitos de disputa. Eram protegidos e mantidos pelos empregados da empresa de Otto, que mantinham, dessa forma, uma espécie de sociedade secreta para não correrem riscos. A fundamental Miep Gies fazia parte desse grupo. O pior chegou mesmo a acontecer, já quando o Dia D havia ocorrido. Dois dias depois da última carta dirigida a Kitty, a quatro de Agosto de 1944, a “Grüne Polizei” tomou de assalto o anexo e todos os que nele habitavam foram enviados para campos de concentração.  Ninguém sobreviveu a não ser Otto Frank.

A melhor resposta de Anne, foi mesmo ter continuado a busca para se conhecer ela própria, mesmo em tempos de provações pelas quais ninguém devia passar, e ser honesta perante isso. No feixe de contradições que ela dizia ser — porque todos lhe cobravam a impertinência, o facto de gostar de falar, de dar a opinião, do flirt — ela falou, ela importunou, ela namorou. No anexo, além do namorado anterior Peter Wessel, aproximou-se também do filho dos Van Daan. Apesar das acusações que lhe faziam, o que lhe originava imensa confusão e dúvidas sobre ela própria, sentia a  necessidade de mostrar que não era aquilo que os “adultos” pensavam e que, afinal, havia uma outra Anne mais complexa e profunda à espera de ser conhecida. Uma outra Anne que queria lutar e mostrar-se para além do futuro que o nazismo lhe roubou. “Quando estou calada e séria, todos pensam que estou a representar uma nova comédia. Para me salvar só me resta dizer uma piadinha. Pior ainda quando se trata da minha família que imagina logo que estou doente e me impinge pastilhas contra as dores de cabeça , que me toma o pulso a ver se tenho febre, que pergunta como funciona o aparelho digestivo para, em seguida, censurar o meu mau génio. Não suporto semelhante coisa. Quando me tratam desta maneira, torno-me ainda mais impertinente, fico triste, e, por fim, viro o meu coração do avesso — o lado mau para fora, o bom para dentro — e continuo a procurar um meio para vir a ser aquela que gostava de ser,que era capaz de ser, se … sim, se não houvesse mais ninguém no mundo. (…) Já te contei em tempos que não tenho uma alma, mas sim duas. Uma dá-me a minha alegria exuberante, as minhas zombarias a propósito de tudo, a minha vontade de viver e a minha tendência para deixar correr, isto é, para não me escandalizar com flirts, abraços ou piadas inconvenientes. Esta primeira alma está sempre à espreita e faz tudo para suplantar a outra que é mais bela, pura, mais profunda. Esta alma boa ninguém a conhece, não é verdade?E é por isso que tão pouca gente gosta de mim.”

Anne Frank morre após ter sido transferida de Aushwitz para Bergen-Belsen, apenas dois meses antes da libertação da Holanda. O diário, que tencionava publicar posteriormente sob o título O Anexo Secreto  não foi a única coisa que escreveu.  Da sua autoria, ainda podemos contar com 34 contos e um romance que não conseguiu finalizar, Cady’s Life. Quando Miep e Otto, à volta da correspondência da empresa, descobrem a carta que confirma a morte de Anne e Margot, esta abre uma gaveta da sua secretária e diz “toma, aqui está o legado da tua filha.” Quando Otto acabou de ler o diário constatou para si, “não conhecia a minha própria filha.” Assim como a maioria dos pais.

Conjunto!Evite: “O que é mesmo um Disco? É um LP? É um streaming? É um link?”

Do mesmo modo que Primo Levi se questionou ‘Se isto é um homem’, assim os Conjunto!Evite se inquirem ‘Se isto é um disco’ com o seu novo álbum. E o que é, de facto? A verdade é que as mudanças em torno do panorama musical têm contribuído para a abertura do leque de respostas. Tal como os próprios Conjunto!Evite relembram, “Hoje em dia o que é mesmo um Disco? É um LP? É um cd? É um streaming? É um link para download? O conceito de disco já não é o que era e por isso decidimos pegar nesse paradoxo e moldá-lo à nossa maneira.” O resultado surgiu no dia 3 de Junho com um conjunto de 8 de temas de puro prog rock, entre os quais o curioso ‘Controla a paranóia’, numa referência à série de ficção científica Hitchhiker’s Guide to the Galaxy, de Douglas Adams. “All through my life I’ve had this strange unaccountable feeling that something was going on in the world, something big, even sinister, and no one would tell me what it was.” “No,” said the old man, “that’s just perfectly normal paranoia. Everyone in the Universe has that.” A extrapolar o universo musical e porque, realmente, as coisas se encontram ligadas, o audiovisual também surge destacado com o stop motion de ‘Controla a Paranóia’ e a animação, que faz lembrar um videojogo, de ‘O Lead é que Decide’. A música é feita de imagens e vice-versa e foi sobre isso mesmo e muito mais que, na entrevista que se segue, conversei com a banda. É ler. “Se os melhores livros nos agarram na primeira linha, pode um primeiro riff ter o mesmo impacto?” Claro que sim.

Há uma concepção visual muito interessante nos videoclips que já apresentaram. Temos o stop motion de Controla a Paranóia e a animação, que faz lembrar um videojogo, de O Lead é que Decide. Faz sentido, para vós, levar a música para esse lado visual? É outra forma de comunicação complementar? Ou seja, pode-se pensar a música através de imagem?

Faz sentido porque a nossa música já evoca por si muitas imagens e, ao darmos corpo a essas imagens, estamos a complementar a música e a ajudar a estabelecer relações com quem nos ouve. No princípio, tentamos que os vídeos mostrassem a nossa energia a tocar ao vivo mas percebemos que a isso faltava algo extra como o stop motion da Controla a Paranóia. Nesse caso em específico, o stop motion acrescentou valor à música, acrescentou uma narrativa a um tema instrumental e casou muito bem.

O Lead é que Decide tem letra e voz mas Conjunto!Evite, no cômputo geral, está mais associado ao instrumental. Quais são os desafios principais para vós no que diz respeito à construção de uma letra e a seguinte vocalização?

No início, sim, começou por ser uma banda instrumental, mas assim que se fez a Fabiana e o Sebastião escreveu a letra e cantou ficamos convencidos de que um pouco de voz aqui e ali ficava muito bem. Passado uns tempos, juntámos a voz do Vicente para realçar certas partes e para atingir registos um pouco mais graves. O desafio começa por saber onde encaixar voz na música ou se precisa sequer de voz. De seguida, são as melodias, depois, as letras podem demorar um pouco mais a surgir mas, quando isso fica pronto, o verdadeiro desafio é conseguir cantar e tocar ao mesmo tempo visto que os nossos vocalistas são também instrumentistas. Mas com o rodar das músicas as coisas foram ao sítio 🙂

O riff de uma guitarra consegue dizer tanto como um conjunto palavras?

Um riff consegue dizer outras coisas , que as palavras não conseguem. Um riff faz-nos sentir coisas sem precisa compreensão, a emoção é a linguagem do rif. As palavras têm acesso direto à nossa compreensão, as palavras têm imagens associadas a elas que de certa forma enquadram as emoções sugeridas pelos riffs.

Porque é que neste disco vocês pegam no conceito Paranóia? O que tentam passar com esse tema?

Na verdade, não foi nossa intenção pegar no conceito por si só. “Controla a Paranóia” surgiu quando estávamos a fechar os nomes das músicas, já tínhamos concluído o vídeo e achámos que era um nome que o representa bem pela sua narrativa. Se tentamos passar algo do tema será uma referência ao Hitchhiker’s Guide to the Galaxy do Douglas Adams – “All through my life I’ve had this strange unaccountable feeling that something was going on in the world, something big, even sinister, and no one would tell me what it was.” “No,” said the old man, “that’s just perfectly normal paranoia. Everyone in the Universe has that.”

O nome do álbum é curioso, Se Isto é um Disco. Pode ter duas interpretações possíveis: ou há mais elementos nele que extrapolam o conceito normal de disco, ou pode ser uma brincadeira, sátira com o dedo apontado a vós próprios. Podeis falar, um pouco, sobre o título? O porquê?

O nome do disco surge de um trocadilho com o título do livro escrito por Primo Levi, Se isto é um Homem, e de um debate: Hoje em dia o que é mesmo um Disco? É um LP? É um cd? É um streaming? É um link para download? O conceito de disco já não é o que era e por isso decidimos pegar nesse paradoxo e moldá-lo à nossa maneira. A própria palavra Disco pode levar a várias interpretações, o que nos agrada porque a nossa música é também isso, uma quadro sonoro aberto a interpretações.

Como é fazer parte da colectânea Novos Talentos FNAC?

É um orgulho enorme! Ver o nosso trabalho incluído numa colectânea que já deu a conhecer tantas boas bandas é sem dúvida especial e um bom motivador para continuar a fazer a música que nos melhor representa.

Relembrem o início e como tudo começou.

Começou e continua a ser um desafio. O Fábio, o Sebastião e o Zé já tocavam juntos noutro projeto de versões maioritariamente dos anos 60/70 e, em 2010, surgiu a oportunidade de nos apresentarmos num formato só com músicas da nossa autoria. Na altura, estávamos a trabalhar em 4 músicas pensadas para serem cantadas mas a disponibilidade da vocalista desse projeto era limitada logo, o Fábio sugeriu lançarmos-nos à aventura só com os instrumentais. Eventualmente, 3 dessas músicas e outra que compusemos mais tarde tornaram-se no nosso primeiro disco, Conjunto!Evite, que lançámos em 2014.

Conjunto!Evite é rock progressivo mas, no entanto, não deixam que isso seja um rótulo? Procuram, também, mais?

Sim, procuramos fazer boa música, música que gostamos, independente de estilos e que nos desafie acima de tudo. Há aquele clássico exemplo de bandas como AC/DC – que adoramos – de rock straight forward sem grandes desvios ao longo dos anos e dos discos mas a nossa cena é explorar em cada disco ambientes novos e fazer deles nossos.

Thiago Hoover “é nossa missão dar o recado, retratar o que vemos e transformar em história”

Já havíamos falado dos Mamelungos, é verdade, a banda que junta os recifenses Thiago Hoover, Luccas Maia, Peu Lima e Weré Lima. Agora é a vez de conhecermos o trabalho a solo de Thiago Hoover com o fuzz do álbum Aurora Boreal. As relações, as frustrações e os desgostos de amor são o grande centro do disco. Não deixa de estar latente, no entanto, uma crítica ao estado actual do Brasil. “Aqui vai tudo mal, quem é que vai dizer amén” pode-se ouvir, por exemplo, no último tema de Aurora Boreal, Xau Querida. Mas, como o próprio relembrou na entrevista que se segue, se “nem só de amor viverá o homem”, também é verdade que “nem só de fuzz viverá o roqueiro”. Por isso, o leque musical do recente trabalho de Thiago abre-se para o spoken word característico do rap , numa parceria com AMANAJÉ SOUND SYSTEM; beats electrónicos e o jazz.  Sem esquecer, claro, o respeito pela singularidade e acalmia da guitarra acústica.  Vamos agora ao que interessa, as respostas do Thiago.


Pelo que percebi, este projecto, no início, era para ser um ep. Qual foi o momento em que percebeste que poderia ser mais, um álbum?

Esse processo, de fato, é bem antigo e se reciclou com o tempo.

Escolhi primeiro 4 ( Aurora Boreal – Pra mais ninguém – Foi Triste e Fuzz on ). Gravei, mixei, praticamente finalizei e, paralelamente, travei na questão da arte visual. No tempo que foi demorando pra acharmos a capa certa eu continuei gravando (Comigo na Pior – Tudo o que eu fiz – Querer ou não)  e nada da capa sair. Já estávamos no sexto tipo de capa e ainda não me sentia à vontade com a representação que eu queria passar… sabe? A Gente vê, Babyboom e Xau Querida foram as últimas músicas a serem inseridas e, finalmente, eu fiz uma sessão de fotos com a Bárbara Cunha. Recifense fotógrafa, cinegrafista e diretora de cinema que a minha vida mudou ― tudo se encaixou e, finalmente, eu pude juntar esse meu baú dos tesouros de Aurora Boreal.

“Aqui vai tudo mal, quem é que vai dizer amén”, surge no último tema do álbum, numa clara alusão à realidade política e social do Brasil actual. Esta é a grande temática que tem gerado grandes divisões.Conta como é que se tem vivido essa asfixia. O medo de falar livremente é real?

Acho que não existe medo de falar, todos os artistas brasileiros se posicionaram muito bem contra todo esse processo que estamos passando pelo atual governo. Faz parte da nossa missão dar o recado, retratar o que está sendo visto e transformar em história, “nem só de amor viverá o homem”. rs.

Nesse tema, muito curiosamente, surge um entrecruzamento com a spoken word (Reggae/rap) dos Amanajé Sound System. Porquê? Por também ser um estilo ligado à contestação?

Minha relação com o Amanajé começou num show do Mamelungos em São Paulo, numa casa que não existe mais, na Vila Madalena, chamada Zé Presidente. O Gaúcho, engenheiro de som e produtor musical do Amanajés operava nessa casa, a gente pirou no trabalho que ele fez conosco aquela noite e ele pirou na banda. Ficámos amigos e ele me chamou pra colocar guitarra e programações em umas músicas deles. Eu participei de “Retrato de Maria” e “Trajetória” tocando guitarra, synth e programando beats. A composição de Xau Querida (democracia) é inicialmente minha e de Paulo Veríssimo de Brasília, cantor, guitarrista e compositor da banda Distintos Filhos. Estávamos em Brasília fazendo uma temporada juntos Distintos + Hoover no teatro Sesi de Taguatinga e a gente se cobrou de compor juntos… O momento era exatamento o do impitman da Dilma e a música escorreu rapidamente quando nos juntamos. Após Riff, A, B e Refrão prontos, sentimos a falta de um (especial), uma parte diferente que não se repete na música. Eu lembrei do Amanajés na hora, comentei pro Paulo e ele adorou a idéia, mandei a música pros caras e eles também adoraram a idéia da música como um todo… Quando eles mandaram as tracks pra gente colocar na música eu fiquei emocionado! Eles captaram e ampliaram a expansão da música pra lugares que a ótica minha e do Paulo não iriam. Pra mim a riqueza da música ta aí, sabe? Da diversidade e amplitude.

A banda Mamelungos representa toda uma simbiose e miríade de estilos musicais, em representação da riqueza e variedade que caracteriza o Brasil. Pressente-se, em alguns temas, analogias ao folk/country, mas não se pauta pelo stoner/rock agressivo. Isso é o que caracteriza mais o teu estilo pessoal? O que quero perguntar é se vieste mesmo do rock, se, declaradamente, é a tua praia e foi aí que tudo começou para ti.

Noooossaaaaa… Essa sua colocação foi demais e eu me sinto muito honrado de ler isso, principalmente de fora do Brasil. =))))))) Sim, eu sou roqueiro, sempre fui! Toco alto, Weré sempre ficou louco com o volume da guitarra. Quando tinha o Igor Bruno que tocava violão de nylon também era a mesma coisa, e eu amo música brasileira, trago ela comigo no meu sotaque, nas minhas histórias, mas a minha alma é rock e eu tô muito feliz de ter aceitado isso, depois que eu voltei para minhas origens eu me sinto mais verdadeiro em chamar esse projeto de (Thiago Hoover) sabe? Ao mesmo tempo eu não gosto de me repetir nem segmentar, pretendo continuar indo por caminhos diferentes, sempre. Crescer e amadurecer.

O álbum tem como grande temática a frustração e o desgosto amoroso (embora em A caminho do sol haja a grande inversão dessa ideia). São temáticas que têm tanto de pesado como de delicado e sensível. Sentiste que, por isso mesmo, as aberturas com o violão foram essenciais?

Sim, com certeza, eu considero o violão como um dos instrumentos mais poderosos de todos os tempos. Ele abre mares, para tempestades e acalma os corações aflitos. É a nossa sítara, a ponte ou antena pra música sair do plano etéreo pra nossas cabeças.(Mas também não se fecha aí, há o jazz de Pra mais ninguem e, também, alguns elementos de electrónica de Babyboom.)

Como foi a experiência da produção e concepção deste álbum, agora em nome próprio?

Filho de mãe poetisa e de pai baterista eu passei a me interessar por música e poesia muito cedo. Aos 12 ja fazia minhas canções e as defendia em festivais estudantis, toquei todos os instrumentos que estavão acessiveis na época, bateria, violão, baixo, guitarra, pq cantar era muito orgânico… Trabalhei como guitarrista em diversas bandas e por ter noção de todos os instrumentos eu sempre dava pitaco no que os outros iriam fazer (depois entendi que isso é produção musical). Musicas como “Pra mais ninguém ou A Caminho do sol estão comigo há mais de 10 anos eeu sempre tive vontade de ser um artista solo, por sempre compor e ter essa necessidade de mostrar pras pessoas e de sentir o feedback que normalmente é positivo ao se identificar com alguma das histórias. São histórias reais, vividas, às vezes mudando os personagens de lugar, trocando os sexos, mas sempre dando ênfase ao relacionamento humano.

Ganso: “temos um fascínio por personagens e ficção — algumas letras reflectem isso”

Com um calmo e delicado novo single lançado no dia 12 de Abril, Não te Aborreças, os Ganso partiram em digressão, em conjunto com os Reis da República, por Portugal fora. A tour Equinócio começou no dia 26 de Abril em Évora, mas ainda restam mais cinco concertos no calendário: dia 24 em Freamunde, dia 25 em Coimbra, dia 31 em Vila Real, dia 1 de Junho em Santo Tirso e, dia 8 do próximo mês, na Fábrica da Musa (Lisboa). O novo álbum sairá em Setembro e será o sucessor do EP Costela Ofendida e do longa duração Pá, Pá, Pá. Com humor e  canções com personagens dentro,  os Ganso sempre se pautaram por uma lado contista, de contadores de histórias. Vamos ver o que o próximo álbum nos trará, até porque a digressão actual serve, também, para deixar antever o que andaram a preparar. Entretanto, aqui fica a entrevista que João Sala me concedeu no passado dia 2 de Maio.

Vocês estão, actualmente, com a digressão Equinócio, com os Reis da República. Porquê a decisão de fazerem esta tour em conjunto?

Os Reis da República já são nossos amigos há algum tempo e, também, pertencem à Cuca Monga, a nossa editora. Eles lançaram um álbum em Outubro, o Fábulas, que ainda não apresentaram, e nós  vamos, também, lançar um álbum em Setembro. Apresentámos um single, o Não te Aborreças,  há duas semanas [a entrevista ocorreu a 2 de Maio e o single foi lançado a 12 de Abril]. Então, pensámos que seria bom darmos assim os concertos para os Reis da República  promoverem o Fábulas e nós para promovermos o single e o futuro disco. Achámos que era uma boa ideia fazer a tour em conjunto. O nosso agente é o mesmo, o Felipe, ele é que começou a marcar os concertos. Alguns já estavam marcados antes da ideia da tour.

Estão, também, a aproveitar para apresentarem as coisas novas que andaram a preparar?

Certo! A digressão até já começou na sexta-feira passada [26 de Abril], na She, em Évora, e nós já andamos a tocar 4 músicas do novo disco.

Mas esta tour acaba, também por ser um reflexo da camaradagem entre o elementos da Cuca Monga, certo?

Sim, Sim. Aliás, já tínhamos feito uma tour com a ajuda da Musa: esta tour está a ser uma colaboração Cuca Monga com a Musa. E nós já tínhamos  estado em digressão em  conjunto com a Cuca Monga no Outono de 2016. Na altura era Ganso, El Salvador, Modernos e Bispo (o Luís Severo também veio). Éramos todos juntos em palco a tocar músicas uns dos outros. Pronto foi, também, um símbolo da camaradagem entre nós.

Nas vossas letras há personagens e histórias associadas. Acaba por ser um desafio para vós? Se pensarmos em temas como Pistoleira, Idalina ou Brad Pintas, há um lado de contador de histórias que vem ao de cima.

Se calhar não é bem desafiante, mas é natural, acontece. Nós temos um fascínio por personagens e ficção — algumas letras acabam por reflectir esse mesmo fascínio. Não é, por isso, um grande desafio.

Mas as letras são compostas em conjunto ou estão mais centradas numa pessoa?

No álbum e no Ep foram, no cômputo geral, compostas em conjunto. Agora, no disco que vai sair, são letras escritas individualmente, sobretudo por mim e o Miguel Barreira ― o guitarrista.

Mas, profissionalmente, gostarias mesmo de fazer algo relacionado com escrita?

Sim, gosto muito de escrever, sim.  Actualmente estou a tirar um curso de guionismo.

Interessante, é algo que tem a ver, essencialmente, com diálogos.

Sim, sim. Exactamente! Nas músicas não há muito diálogo, mas há-de haver.

A pistoleira acaba, de certa forma, por se assemelhar a um diálogo.

De certa forma há uma espécie de diálogo, sim. Por acaso, bem visto.

Também estás ligado ao teatro, certo?

Isso é mais com a outra banda em que toco, os Zarco. Estamos a fazer músicas de um espectáculo, e eu o Fernão, um músico convidado dos Ganso (toca sopros).  Também já tivemos a oportunidade de fazer a banda sonora de um espectáculo numa companhia que se chama As Crianças Loucas, da qual eu, também, faço parte.

As vossas capas são, também, interessantes. Há um cuidado especial com elas?

Sim. As primeiras capas (do primeiro e segundo álbum) foram feitas pelo Francisco Ferreira. No outro disco e neste single mudámos de ilustrador mas, também, mantivemos esta estética de ilustração e design.

A rebeldia do amor em Roberto Benigni

Saiu, relativamente há pouco tempo, uma foto que nos dava conta que Roberto Benigni iria ser Geppetto, num novo filme sobre Pinóquio, de Matteo Garrone. Mas ele vai ser sempre o eterno Pinóquio.  Ora compreendam porquê. (Texto publicado, originalmente, no site Comunidade Cultura e Arte, no dia 9 de Maio)

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Benigni como Geppetto, no novo filme de Matteo Garrone

Fellini gostava, deliberadamente, de palhaços. Isso é verdade. Talvez fosse por representarem, tão bem, a essência deste mundo ― ora fazem rir, ora fazem chorar, ora divertem, ora assustam.  Porquê? Porque nos sentimos sempre estranhos, quase que a levar um murro no estômago, quando vemos um palhaço triste: palhaços e tristeza são dois conceitos que, a priori, a sociedade nos ensinou a ver como partes separadas. Mas esse desconforto tem um outro motivo ainda maior que se prende com este verso de A Divina Comédia, de Dante, “Não há maior dor do que a de nos recordarmos dos dias felizes quando estamos na miséria”. No fundo, estes seres estranhos têm tanto de realidade como de irrealidade. Tanto de concreto como de fantasia. E é tudo isso que os faz compreender na perfeição a essência da icónica frase, “it’s a sad and a beautiful world”, que Benigni atira a Tom Waits em Down By Law (1986), realizado por Jim Jarmusch, e que representa como ninguém a cinematografia do nosso enfant terrible Roberto, principalmente em O Tigre e a Neve e  A Vida é Bela. Mas como este artigo não começa ao acaso e temos, sempre, de ir ao início das coisas, começamos pela prova de amor de Fellini à arte circense,  expressa em toda a sua plenitude em Os Palhaços (1970), que resgata a história e lança um olhar sobre a evolução destes profissionais. Esta magnífica obra cinematográfica começa com uma criança que vê, durante a noite, pela janela do seu quarto, uma companhia montar a tenda circense perto de sua casa. Na manhã seguinte, ao sair, vemo-la entrar, num misto de curiosidade e fascínio típico de quem vê algo novo pela primeira vez, nessa mesma tenda. No final, em que a nostalgia fala mais alto, com a tristeza inerente de esta ser uma actividade em declínio e sem nenhuma segurança, as bancadas do circo aparecem vazias, escurecidas pela sombra, enquanto dois palhaços tocam trompete iluminados por um foco que os segue.

É precisamente por aqui que começamos porque  há muitas coisas que juntam Fellini e Benigni. Benigni é um enfant terrible que demonstra ser um completo diabo travesso, tal como Mark Twain  imaginou o Huck Finn e Tom Sawyer, ou como Collodi imaginou Pinóquio. Há, no entanto, um reverso de ingenuidade que nada tem a ver com diabruras ou malícia, muito  pelo contrário, chega até a tocar a fantasia e a angelicalidade. Tal como a criança se deixa fascinar no início de Palhaços, assim também se deixam fascinar as personagens criadas e  interpretadas por Roberto. Tal como Fellini termina em nostalgia e tristeza, assim Benigni também nos apresenta o abismo por trás da sua aparente leveza. É esta constante união entre estes conceitos que tão bem caracterizam o realizador de A Vida é Bela e O Pequeno Diabo que, aliás, tal como muito  felliniamente disse numa entrevista a David Letterman, depois de uma tentativa falhada de enveredar no sacerdócio até trabalhou, também, como ajudante de mágico, num circo.  Não seria, portanto, de admirar que Fellini gostasse desse lado de Benigni e o convidasse para fazer parte de A voz da Lua lançado em 1990. Desta  vez, é o realizador de Amarcord quem coloca Roberto na personagem muito poética de alguém que vê o mundo de forma diferente, à margem da sociedade (acaba de sair de um manicómio), também ele em constante viagem entre a ingenuidade e  a fantasia ― pois a lua o segue e conversa com ele. É muito interessante repararmos, aliás, na forma como Fellini tratou Benigni durante as rodagens do filme, justamente por Kim Novak. Ao tratá-lo pelo nome artístico de uma actriz, está a pô-lo num lugar de destaque que no cinema, muito particularmente, é relegado ao género feminino.

Mas nunca percamos de vista o verso chave de Dante, “Não há maior dor do que a de nos recordarmos dos dias felizes quando estamos na miséria”. E à luz desta ideia deixada pelo eterno enamorado da bela Beatriz (quase que uma Eurídice) , vale a pena colocarmos estas questões. Quem foi, afinal, Guido, em a Vida é Bela? Porque é que este filme,não obstante algumas críticas por, supostamente, retratar o holocausto também com humor, provocou o impacto que provocou? Pois muito bem, de forma tipicamente benigniana, Guido é um apaixonado pela vida que faz rir ao extremo. É um romântico, também, que, mais do que meramente fazer poesia, quer fazer da sua vida um poema. Por isso, na sua luta desajeitada de encontrar um lugar na vida, a sua ambição não é mais do que conseguir, legalmente, abrir a sua tão desejada livraria, “tutto metà prezzo”. Mas convém não esquecer que este filme, de 1999, está dividido em duas grandes partes. Essa divisão dá-se no exacto momento em que a personagem de Nicoletta Braschi, a eterna musa real de Benigni, decide de livre e espontânea vontade entrar no comboio para ir para o campo de concentração tal como o marido e o seu filho. Antes, vemos as recordações do que poderia ter sido a vida de uma maravilhosa família. Por isso é que o humor da primeira parte é tão importante. Depois, a brutalidade de uma segunda guerra mundial que acabou com a felicidade e com o decorrer normal do dia-a-dia dessa mesma família. Lá está, a expressão máxima do verso de Dante que explica como um primeiro momento de felicidade pode reforçar a expressão de um momento de tristeza que vem a posteriori. É o tal desconforto do murro no estômago quando se vê um palhaço triste. O verdadeiro entendimento de Benigni do “It’s a sad and a beautiful world”, de Down By Law e, já agora, uma ideia também partilhada no universo de Charlie Chaplin. Em Monsieur Verdoux, quando o anti-herói tem uma conversa, em sua casa, com a personagem de Marilyn Nash, esta atira-lhe, “é um mundo confuso e muito triste, mas um pouco de bondade pode torná-lo belo.”  Essa mesma ideia, mais uma vez, também é muito visível em Noite na Terra, de Jim Jarmusch. Porque é que a parte final, em Helsínquia, vem depois do riso ter sido levado ao extremo com o taxista interpretado por Benigni, justamente?

Assim é este italiano, alguém que faz das suas personagens, mais do que meros desajeitados desta vida (tal como o Charlot de Charlie Chaplin), poetas, estetas essencialmente. Personagens que, independentemente de escreverem versos reais ou não, mesmo tendo atitudes endiabradas e travessas, ousam ter uma atitude poética perante as suas vidas. Querem fazer da sua estada no mundo um grande poema e é, exactamente, nisso, que reside a sua rebeldia. A verdade é que por a Vida é Bela ter tido tanto impacto merecido, o resto da cinematografia de Roberto acabou por ficar mais esquecida. Mas relembro, também, O Pequeno Diabo, de 1988. Num conceito que respira Mark Twain por todos os lados, há dois seres imortais que descem a este mundo terrestre: o próprio diabo e uma outra mulher. O cómico da situação é que em vez da malvadeza, vemos um ser brincalhão mas simpático que se fascina por tudo porque está a experienciar e a sentir as coisas pela primeira vez. Bastante desajeitado mas ingénuo, como uma criança de cinco anos, no mundo de Benigni até o próprio diabo se deixa levar pelas artimanhas do amor. Em parte, há algo neste filme que faz lembrar um pequeno diálogo entre a Tia Polly e o Huck, “a seguir, falou-me do lugar das penas eternas, e eu respondi-lhe: «Quem me dera lá estar!» Ficou danada, mas eu não tinha dito aquilo por mal. Tudo o que eu queria era estar noutro sítio, mas em nenhum em especial. Ela disse que era muito feio o que eu tinha dito, que ela própria não o diria por nada deste mundo, e que iria viver de modo a ir para o Céu. Bom, eu não via vantagem nenhuma em ir para onde ela fosse, por isso decidi não me esforçar para que tal acontecesse. Mas não o disse porque só iria criar complicações, e isso não seria nada bom. Agora que já estava lançada, continuou a falar-me do Paraíso. Disse que tudo o que toda a gente tinha de fazer era andar sempre por ali, com uma harpa, a cantar eternamente. Deu-me a ideia de que não deve ser muito interessante. Mas também não o disse. Perguntei-lhe se ela achava que o Tom Swayer iria para lá, e ela respondeu que tinha as suas dúvidas. E eu fiquei satisfeito porque gostaria de estar com ele.” Da mesma forma que Huck vê o Inferno de forma ingénua e até estaria tudo bem se, ao menos, estivesse com o seu amigo, o mesmo se sucede no filme de Benigni. Tal como uma criança de cinco anos aterroriza um pai com partidas, o diabo aterroriza um padre com as confusões que faz, mas nunca deixa de ver o homem do clero como amigo embora este, por sua vez, já esteja farto, sem paciência e cheio de desconfianças. Há aqui quase que uma inversão dos valores. E, mais uma vez, é a ingenuidade benévola, a amizade ou as partidas do amor sempre livre que acabam por se sobrepor e atingir um patamar além do bem e do mal.

Benigni é, essencialmente, da poesia e da palavra. Demonstrou-o inúmeras vezes. Aliás, O Tigre e a Neve, de 2006, é uma ode a isso mesmo. No início, além de Tom Waits, há referências a Marguerite Yourcenar, Jorge Luis Borges, Eugenio Montale e Giuseppe Ungaretti. O que Benigni quis transmitir com este filme que, depois de muito tempo em que a crítica não lhe foi tão favorável, foi que existe um lugar certo para cada palavra e, esse espaço em particular, tem de ser respeitado.  Demonstrar como se pode ser poeta nas atitudes, principalmente.  Tal como em a ‘Vida é Bela’, essa poesia e esse poder romântico de respeitar o lugar certo de cada verso, são expressos como vencedores sobre um cenário de guerra, neste caso o Iraque. Também em Pinóquio, de 2002,  há uma poesia latente, não só pela reflexão sobre a vida e a morte que a Fada Azul faz no início mas, essencialmente, no final, quando Pinóquio, já menino, decide entrar na escola e a sua sombra, sempre sincera, recusa-se a abandonar a observação e o fascínio das coisas belas. Por isso, ao contrário do corpo físico, fica à porta acompanhada pela borboleta azul.

Tudo o que relembramos aqui, a ingenuidade, a rebeldia, a travessura, o olhar para as coisas tal como se fosse a primeira vez, comuns a todas as personagens benignianas, tem a ver, única e exclusivamente, com este conceito — o amor que, ao invés de prender, liberta. Por isso é que, tal como a sombra de Pinóquio acompanhada pela borboleta, nunca nos devemos esquecer de olhar para as coisas como se fosse a primeira vez, porque só assim nos lembramos da sua beleza. E, seja em tempos de paz ou guerra, o que é que é mesmo o amor? O amor ama por si só ou obedece à nossa vontade daquilo que queremos amar? O amor cede a dogmas, sejam eles quais forem ou é, antes, como o vento que  vai para onde quer? Por essa razão é que Santo Agostinho decidiu juntar, numa mesma frase, amor e a vontade do querer, “ama e faz o quiseres”. E mesmo assim, mesmo que a centelha desse amor seja breve porque todos perecemos, sermos sinceros à sua expressão faz com que algo se solte da fatalidade do destino. Ao menos, num breve momento, aproximamo-nos da verdade de quem somos, não importa quem ou o que amamos, se realmente amamos. Isso é sempre rebelde e obriga-nos, então, a sermos poetas e estetas. Como diria o seu amigo Jarmusch que foi, aliás, quem o deu a conhecer à América, em 1986, Só os Amantes Sobrevivem na alegria e tristeza que este mundo louco representa.

Vai haver um outro filme de Pinóquio, realizado por Matteo Garrone, no qual  vamos ver Benigni como Geppetto. Mas não se enganem, este italiano que beija e abraça toda a gente vai ser sempre o Pinóquio. Aliás, já o queria ser, quando estava ainda no ventre da sua mãe.