Persona

“Outro conceito ou ideia muito interessante em sua obra é a Persona. Parece ser sumamente importante para a existência quotidiana do indivíduo. O Sr se importaria de explicar um pouco mais detalhadamente como foi que elaborou esse termo?

É um conceito práctico de que precisamos para elucidar as relações das pessoas. Observei nos meus pacientes, sobretudo nas pessoas que estão na vida pública, que têm certa maneira de se apresentar. (…) Assim a persona é um determinado sistema complexo de comportamento parcialmente ditado pela sociedade e parcialmente ditado pelas expectativas que a pessoa alimenta sobre si mesma. Ora, isso não é a personalidade real. Apesar de as pessoas garantirem que tudo isso é perfeitamente honesto e real, não é. (…) (…) E quanto mais pronunciada for essa diferença, mais as pessoas são neuróticas, (…)Pensam ser um todo uno e coeso, mas toda a gente vê que são duas. ”

 

Desconforto

O corpo do passado anda para o amanhã, mas de mãos em punho luta contra o que há-de vir sem o entender. É a manutenção e o desejo , a dúvida e a destruição. O futuro está à frente numa miragem e se o corpo anda,no entretanto, na incerteza desta viagem, é porque não o conhece nem o pode ver. É a história que carrega nas palavras e na imagem, à procura de sentimento para o seu propósito de céu, a tentar regular-se numa caótica ordem revestida de caos. Preciso do trilho,no estranho equilíbrio, entre a vontade e o desconforto, a felicidade e a tristeza de angústia. Só corro porque há dores no corpo e faço perguntas porque os sapatos me apertam para as respostas. Há que escrever a história. É a forma de  conhecer o futuro e entender o que está gravado nas células de agora e outrora. O que tiver de  vir ao corpo a ele virá, o que eu tiver de entender, entenderei. Tenho sede, muita sede, medo de sede. Porque andamos?

Bato às portas do meu corpo

Bato às portas do meu corpo numa escalada de procura,
não sei bem do quê,
nem se as portas são as certas,
mas as escadas estão lá para a subida,
o bisturi nas minhas mãos numa busca de cientista,
e os degraus não param de crescer para a suposta saída.
Ainda não sei onde fica.

Sou o bicho do mundo mais comum,
perdido nos labirintos,
caído nos enganos,
encontrado nos erros,
paralisado pelo medo.
As escadas são iguais a tantas outras,
os meus pés sem marca distintiva que os destaque.
Onde fico, onde me levam, eu não sei.

Eu sou apenas um comum eu,
a ziguezaguear na escalada,
a sentir o desejo de ver o mais semelhante dos fogos,
a acalentar a vontade que a mais banal das chamas não se extinga.
O bicho do mundo mais igual sobe pela voz encontrada e perdida,
não sabe em que flor nasce a beleza,
mas sonha e deita-se com a recordação de a ter encontrado.