Entrevista|Thiago Melo


Chama-se Thiago Melo, é do Recife, estado de Pernambuco (Brasil) e, mesmo  sem ele próprio se considerar um artista, utiliza a sua música e poesia para explorar,  afinal, o que está na base da condição humana :  a dualidade entre a verdade e a mentira, a mentira poética essencialmente, os equívocos, o tempo, a ideia de  estrada, de caminho, o ir à procura, quando a poesia está presente e o que fazer na sua ausência. Fazendo uso da voz e violão, com a parceria de amigos ou a solo, e com um forte vínculo  à estrutura basilar do MPB, partilha a sua música nas redes sociais, tal como a sua poesia que vai declamando em vídeo. Portanto, é  só apurar os ouvidos e escutar. Recentemente, desafiei-o com umas pequenas perguntas por e-mail e o meu pedido foi atendido. Sem mais demoras, passemos então ao principal – as palavras do Thiago. Ora leiam.

Há dois aspectos óbvios que tentas relacionar – a música e a poesia. Pelo que percebi, há algumas coisas que escreves, declamas em vídeo, e que depois acabam por ser musicadas.  Outras não, outras, ainda, talvez estejam à espera. Encontras dificuldades nessas adaptações? O que eu te quero perguntar é o seguinte: como é quando olhas para as palavras e lhe associas uma melodia? Acaba por ser um processo de escrita diferente quando escreves um poema e o deixas ficar assim? Ou nem pensas nisso, sequer, quando começas a escrever alguma coisa?

Percebeste perfeitamente, Ana. Escrevo poesia e componho canções.
Na hora de compor, não costumo criar a melodia e escrever a letra simultaneamente, como alguns compositores fazem. O que eu faço é compor uma música para algum poema que eu já tenha escrito ou encaixar esse poema numa música sem letra que eu tenha guardada.
O grau de dificuldade dessa adaptação depende da forma do poema. Como eu não tenho um estilo certo, alguns poemas tem ritmo, métrica e rima certinhos; outros, são bem livres. Os poemas que já obedecem a uma métrica me oferecem bem menos dificuldade na hora de musicá-los. Já os poemas que têm forma livre me dão muita dor de cabeça na hora de encaixá-los numa música, porque eles raramente cabem na melodia. Aí eu tenho que mexer num texto que, teoricamente, já tinha chegado à sua versão definitiva.
Não me considero um poeta nem um compositor, mas, se tivesse que escolher uma dessas opções, diria que sou poeta. Tenho mais ciúmes de meus textos do que de minhas músicas. Isso me dá ainda mais trabalho na hora de musicar os poemas, porque eu fico com pena de modificá-los. Tenho que achar a medida certa entre fazer o texto soar bem musicalmente e não sacrificá-lo nessa adaptação.
De maneira geral, é a música em função do texto. Nunca escrevo um poema pensando na música que ele poderá se tornar. Penso apenas no texto que eu quero que ele se torne.

As palavras fazem parte de uma linguagem. A música, só por si, é também ela uma linguagem – universal, até, porque não conhece barreiras linguísticas. Ambas as coisas, palavras e músicas, despertam emoções. As palavras, no entanto, podem mentir em várias vertentes. Achas que o mesmo pode acontecer com a música?

Acho sim. Tanto em meus textos quanto em minhas música, o que eu faço, essencialmente, é mentir. Minto até as verdades que eu quero falar. Em minha defesa, devo dizer que minto com a maior honestidade possível. Minto para contar uma história da melhor maneira possível. Minto, num poema ou numa música, para transmitir um sentimento exato ou para apresentar a estética que eu desejo.
Mentira desonesta (comigo mesmo) seria eu escrever um livro contando histórias que eu não quisesse, apenas para vender; seria eu fazer música de um estilo mais comercial apenas para vender.
Para o bem e para o mal, eu não vivo de música e poesia. A parte boa é essa; eu não preciso ser desonesto com o que escrevo, com o que eu componho.

Através dos teus vídeos vais fazendo, também, colaborações com alguns amigos que, por sua vez, também terão ligação à música. Através da tua própria experiência, do que vais vendo e ouvindo, podes contar o que de novo se está a fazer a nível musical?

Não me considero uma pessoa muito atualizada, para dizer o que se está a fazer de novo. Ainda não consegui nem escutar metade do que já se fez; mas sou curioso, então estou sempre escutando coisas novas (ao meus ouvidos, ainda que sejam coisas feitas há bastante tempo). Ultimamente tenho escutado Mayra Andrade, que não é nenhuma novidade. Ela é uma cantora cabo-verdiana, nascida em Cuba, crescida em países como Senegal, Angola, Alemanha e residente em Paris. Como não poderia deixar de ser, ela faz “world music”, seja lá o que isso signifique. Sua música é parecida com a brasileira, mas com uma africanidade mais acentuada.

Através das tuas músicas e covers, como por exemplo as de Caetano e Alceu Valença, há uma relação forte com as bases do MPB. Como é que definirias essa relação. Como cresceu em ti e como a vives?

Minha relação com a MPB começou, naturalmente, em casa, escutando involuntariamente os discos que o meu pai escutava. Em algum momento, ainda muito criança, algumas daquelas músicas me agradavam mais do que outras e eu pedia para meu pai repeti-las. Nessa etapa, a MPB disputava espaço com meus discos de música infantil. Na adolescência, eu pude decidir que músicas escutar. Não precisava escutar os discos de MPB ou infantis que meu pai colocava para tocar. Foi aí que, por influência de amigos e da MTV (e da própria adolescência) que passei a escutar rock dos mais variados estilos, mas nunca deixando a MPB totalmente de lado, o que, no Brasil, seria quase impossível.
Passada a fase mais convulsiva da adolescência, comecei a descobrir clássicos do samba e da MPB. Desde então, é isso que eu venho fazendo. Foi isso que me ensinou a tocar o pouco de violão que eu sei. Aprendi a tocar violão com Djavan, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Geraldo Azevedo, Chico Buarque (lógico, não pessoalmente, infelizmente).

Gostas de poesia, mas ela nem sempre está presente, segundo as tuas palavras. Por isso mesmo, como é a tua relação com a prosa?

Minha relação com a prosa é de futuros amantes. Tenho a ideia de vários contos e romances, e a esperança de escrevê-los um dia; mas, sinceramente, não sei se tenho disposição para tanto trabalho, para procurar tantas palavras que digam exatamente o que eu quero dizer. Acho que é por isso que eu foco nos poemas curtos. É mais fácil de controlá-los, de vigiá-los. Todas as palavras de um poema curto estão sempre à vista de uma vez só. Enquanto eu modifico um verso no final do poema, eu posso ver se as palavras do seu início continuam se comportando bem. No romance, ou mesmo nos contos, as palavras são muitas e eu não me considero capaz de cuidar de um rebanho tão grande.
Acaba de me ocorrer que, talvez, eu deva experimentar escrever microcontos.

Penso que, de alguma forma, a ideia de estrada, do caminho, sentimento de pertença, o sentimento de se estar à procura,como tão bem se vê no tema ‘Fuga do céu’, acabam por ser temas caros para ti, de uma forma geral. Concordas?

Concordo. E acho que o ser humano, em geral, é assim, descolocado, desencaixado. A gente quase sempre prefere ser o que a gente não é.
Não gosto de falar pelos outros, então vou falar por mim, policiando-me para não generalizar. Eu só me sinto cômodo, acomodado, quando eu estou distraído, sem refletir sobre quem sou, onde estou e o que estou fazendo. Se eu me der conta desses aspectos, eu me incomodo. Aí volto à estrada, à procura, ao caminho que me levará, teoricamente, ao meu lugar. Até eu chegar lá e me dar conta de que estou insatisfeito.

Diz-me artistas brasileiros de que gostes e que nós, portugueses, possamos não conhecer…

Siba. Ele é de meu estado, Pernambuco, e faz uma música fortemente influenciada pelo Maracatu, que é uma manifestação feita no Brasil pelos escravos africanos.
Siba é também um ótimo poeta.
Vale a pena conhecer, tanto Siba quanto o Maracatu de uma maneira geral.
BAIANASYSTEM é uma banda baiana com muitos elementos de música eletrônica. Eu mesmo a estou descobrindo neste momento.

*ortografia das respostas segundo  Pt-Br 

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